Vale a pena reflectir sobre o valor noticioso do silêncio: na maior parte dos casos, o preço aumenta na razão inversa das declarações que justificam sonoros títulos propagados pelos tambores mediáticos. Incluindo aqueles que não hesitam em fazer do mau gosto uma permanente senha de identidade.
Monica Lewinsky rompe agora um silêncio de uma década em sóbrias confissões à Vanity Fair. Talvez a mais relevante seja a de que chegou a ser aliciada com dez milhões de dólares para ampliar de viva voz o escândalo que a ligou ao ex-presidente Clinton.
Numa época fértil em propostas irrecusáveis, a recusa em falar ao longo deste tempo tornou cada palavra sua ainda mais cobiçável pela comunicação social de todos os matizes. Mas haverá justo preço para a dignidade que apenas o silêncio voluntário permite preservar?
"Todo necio / confunde valor y precio", escreveu Antonio Machado. Tinha razão, como sempre acontece com os melhores poetas.
Por estes dias as indignações propagam-se em fluxos sincopados, produzindo um inevitável efeito de banalização. São sempre de alta intensidade e de extrema volatilidade: extinguem-se com a mesma rapidez com que despontam. Exigem apenas a disponibilidade de um dedo polegar num smartphone. Seja para evitar o abate de um cão que molestou uma criança ou de um boi que escapou na rota para o matadouro. Seja sobre a co-adopção, as praxes, a deposição de famosos no panteão ou a venda de umas telas de Miró.
Estas indignações avulsas, a propósito de tudo e de nada, promovem uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas sem hierarquia aparente e a tentação dominante é sempre nivelar por baixo, a coberto do pseudo-vanguardismo das "redes sociais" onde parece ter razão quem mais se exalta no conforto do sofá.
Assistimos impávidos ao triunfo da irrelevância e da superficialidade que acaba por produzir o efeito de uma anestesia geral: na semana seguinte já ninguém se lembra da polémica da semana precedente. Much ado about nothing, como nos ensinou um profundo conhecedor da natureza humana.
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