Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Semanário, o mais "estranho" jornal português, faz hoje 25 anos

 

O Semanário celebra hoje 25 anos, sem grande festa nem euforia, num estado crónico de morte anunciada, mas sem que esta ouse dar a ceifada final. A sua vitalidade há muito que se esbateu, mas os mistérios e as histórias adensaram-se com o passar dos anos, ou não fosse este o jornal  das crónicas mais famosas em Portugal: as do Dantas.

 

Há uns tempos, José Pacheco Pereira observava no Abrupto que "o mais estranho de todos os semanários portugueses é o Semanário, um verdadeiro mistério na sua existência, na sua redacção, no seu arranjo gráfico, nas suas 'notícias'. Estas são na sua maioria delirantes, e basta coleccionar os títulos de primeira página para o perceber. E, no entanto, de vez em quando, contém informações de primeira mão e de primeira água, a que ninguém liga, mas que falam a favor do carácter muito peculiar das suas fontes".

 

Acrescentava ainda que "as fontes do PSD no Semanário são também transparentes para um conhecedor, mas interessantes sobre os bas fonds parlamentares e outros. São uma sobrevivência quase arqueológica do tempo em que quase todo o noticiário político era aí produzido".

 

De facto, o Semanário transformou-se num mistério que, ao longo dos anos, se foi adensando. As razões por detrás desse mistério são várias, nomeadamente o desafio constante à sua "morte" (e por várias vezes anunciada), que tem catapultado o Semanário para um estatuto de imortal. Como se de um espectro tratasse... ninguém o vê, mas está presente.

 

Só quem circulou naqueles corredores percebe os alinhamentos externos em torno do Semanário. Por exemplo, ao mesmo tempo que um ministro assinava há uns anos a falência técnica do jornal, o outro dava cobertura ao jornal. E assim se ia explicando a sua existência intocável às portas de Lisboa, sem que ninguém "incomodasse" um jornal tecnicamente falido. 

 

Os ordenados pagos em "cash" à semana, isentos de descontos ou enquadramento legal, passaram a ser o quotidiano do Semanário, sem que durante meses algum inspector da Segurança Social ou das Finanças andasse por lá.

 

Durante anos, os telefones nunca foram pagos, apesar de ninguém os cortar. Alguém haveria de os pagar, mas sabe-se lá quem... Estas são apenas algumas histórias de um jornal, que no fundo reflecte a história das relações de poder em Portugal.

 

O Semanário tornou-se num jornal sobre o qual ninguém quer falar, mas por onde quase toda a elite jornalística passou. Até mesmo o "professor" Marcelo Rebelo de Sousa, que fala de tudo e mais alguma coisa, do Semanário nao fala (um projecto que viu nascer). Algo aparentemente estranho, atendendo ao facto daquele jornal ter tido a maior redacção de que há memória em Portugal, com gente de elevado calibre a receber ordenados impensáveis, até mesmo para o nível de vida actual. 

 

Os anos passaram e do esplendor de uma redacção de luxo sobreviveram apenas alguns "bravos", "destemidos", "errantes" e "loucos". Depois de ter chegado a ameaçar o Expresso em tiragens, o Semanário foi remetido para um estatuto de "jornal de culto", comprado apenas por alguns "fanáticos" e leitores particularmente interessados. Quanto mais a aura do jornal se ia esbatendo, o seu público ficava reduzido a uma elite cada vez mais restrita.

 

Relembre-se que o Semanário foi o único jornal em Portugal de cariz verdadeiramente político. Aliás, a sua criação teve um único propósito: combater o "bloco central". De entre os vários nomes envolvidos na sua génese, destaca-se o do já falecido Victor Cunha Rego e o de Marcelo.  

 

Nas suas páginas lia-se (e ainda se lê) política pura e dura. E, independentemente das "notícias delirantes", o Semanário continua a ostentar algumas virtudes jornalísticas há muito desaparecidas do panorama da imprensa portuguesa.  

 

O autor destas linhas não tem dúvidas em afirmar que o Semanário é um dos jornais com a história mais interessante e rica do pós-25 de Abril. Quem sabe, se as suas peripécias e conspirações não passem um dia para as páginas de um livro. O sucesso seria garantido.

publicado por Alexandre Guerra às 10:13
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1 comentário:
De JD a 28 de Novembro de 2008 às 18:18
Verdade. há mais de uma década que se comenta o fim. bom texto.

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