Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Que tanta falta fez à PJ uma consultora de comunicação

A Procuradoria-Geral da República (PGR) anunciou esta Segunda-feira o arquivamento do inquérito do mais mediático caso policial em Portugal. Ao fim de 14 meses após o desaparecimento da criança Madeleine MacCann, a investigação criminal, através da Polícia Judiciária, não conseguiu encontrar provas suficientes que sustentassem a continuidade do processo.

 

Uma das grandes consequências é a de que o caso "Maddy" foi desvastador para imagem da Polícia Judiciária. Em grande parte devido à ausência de uma estratégia profissional de comunicação que desse resposta a um cenário de crise, no qual uma instituição, neste caso a PJ, estava a ser posta à prova nacional e internacionalmente.

  

Meses depois do desaparecimento de "Maddie", uma  fonte privilegiada da Polícia Judiciária revelava ao autor destas linhas (então noutras aventuras profissionais) que a "pressão mediática chegou a condicionar os procedimentos de investigação".  Dizia essa mesma fonte que os inspectores se sentiram obrigados a agir para "mostrar serviço".

 

Com isto, percebe-se que a PJ não tinha capacidade para lidar com as solicitações insistentes dos meios de comunicação social nem estava dotada de qualquer mecanismo ou ferramentas que lhe permitisse controlar o fluxo de informação entre a instituição e a opinião pública.   

 

A tristemente célebre conferência de imprensa no Algarve, na qual o "improvisado" porta-voz da PJ, o inspector-chefe Olegário Sousa, perdeu o controlo total da situação, chegando ao ponto de ser "atacado" pelos jornalistas que não hesitaram em retirar-lhe intempestivamente os papéis das mãos, é o melhor exempo disso.

 

Por incrível que pareça, e segundo a mesma fonte, o "speaker" foi escolhido por ser o único inspector no Algarve que estava em condições de proferir algumas palavras em inglês. Ora, qualquer consultor de comunicação perceberia de imediato que aquele inspector estaria literalmente a ser lançado às "feras", prejudicando claramente a imagem da instituição que representava.

 

Colocar uma pessoa sem qualquer experiência de comunicação à frente de um batalhão de jornalistas ingleses e portugueses sedentos de informação é puro suicídio mediático.

   

Por isso, a mesma fonte sublinhava que o principal problema da PJ não terá sido técnico -- ou seja ao nível dos procedimentos (embora se admitam erros), porque a verdade é que este tipo de casos tem índices de resolução muito baixos em qualquer parte do mundo. Assim, o grande problema foi sobretudo de comunicação.

 

A PJ demonstrou não estar ajustada a uma realidade mediática à qual é impossível escapar. É por isso que a consultoria de comunicação se assume, cada vez mais, como um vector estratégico para empresas, entidades e instituições, porque lhes permite lidar com a tal realidade mediática de forma eficaz e eficiente.

 

Esta constatação conduz, assim, a uma única e lógica conclusão: que tanta falta fez à PJ uma consultora de comunicação em todo o processo do caso "Maddie".

 

Há poucos dias em conversa com um jornalista discutia-se precisamente essa questão: Como é possível que  uma instituição como a PJ não tenha uma estratégia de comunicação montada e bem definida?

 

Uma pergunta para a qual este autor ainda não encontrou resposta. 

publicado por Alexandre Guerra às 22:38
link | comentar | favorito
1 comentário:
De eu é que não sou parvo a 24 de Julho de 2008
Eu tenho uma sugestão de resposta à questão.
1º - É natural que o jornalista faça essa pergunta. Ele quer fazer o seu trabalho: arranjar informação, credível e que venda jornais, junto das "fontes".

2º - Uma instituição judicial do Estado não pode estar dependente de uma empresa privada, nem que esta esteja por dentro da sua organização, para cumprir um objectivo muito específico que é "saber comunicar" com a imprensa.

3º - a PJ não está minimanente interessada em controlar o fluxo de informação e a opinião pública. Quer sim ter acesso às provas, analisá-las e tirar conclusões. As conferências de imprensa não são, ao contrário do que possa pensar, um momento-chave na sua actividade. São um frete, uma necessidade para calar as "feras". No minuto seguinte o circo deixa de ser relevante. Não é equacionado em ROIs...

4º - Os McCann contrataram - ou melhor, foi-lhes atribuído - um especialista em comunicação precisamente porque, eles sim, precisavam de defender a sua imagem e angariar fundos. Não se confundam as razões de ambos os lados.

5º - Com a mediatização sem paralelo deste caso arrisco dizer que nenhuma consultora de comunicação, ainda para mais local, teria capacidade para controlar o que quer que fosse. Nem a imprensa internacional, nem os líderes de opinião do jornal da noite. Sobretudo porque a conferência de imprensa é o grau mínimo de comunicação...

Dir-me-ão: "mas o Governo é uma instituição do Estado e tem agências e assessores a trabalhar para si. Verdade, mas o papel do Governo é falar para o país, é promover as suas políticas e convencer-nos do seu sucesso.

As consultoras de comunicação é que esfregam as mãos de contentamento só de pensar nesta possibilidade de negócio. Não me venham vender a ideia de que, muito altruisticamente, se preocupam com a imagem da PJ. "Tanta falta que lhes fazemos, coitados..."

Comentar post

autores

Contacto

piar@sapo.pt

tags

todas as tags

links

arquivos

pesquisar

subscrever feeds