Robert Gates, secretário de Defesa norte-americano desde finais de 2006 e que está de saída das suas funções por motivos de reforma, fez revelações sinceras e surpreendentes nos últimos dias. Revelações, essas, que além de mostrarem um lado sentimental e sensível de um homem que esteve durante vários anos à frente do Pentágono, demonstram a importância da “comunicação” em circunstâncias extremas. E é sobretudo este último ponto que é aqui analisado.
Antes de mais, é importante perceber quais são essas circunstâncias extremas em que Gates foi “obrigado” a comunicar. Com duas guerras no currículo, Gates viu chegar aos Estados Unidos muitos caixões provenientes do Iraque e do Afeganistão com soldados americanos mortos em combate. Um sofrimento ao qual não conseguiu escapar.
Todos os dias, depois do jantar, normalmente sozinho, pegava na sua caneta e escrevia cartas aos familiares dos falecidos. Gates poderia ter atribuído essa espinhosa tarefa a qualquer um dos seus assessores de comunicação, mas não o fez. Esta era a sua missão.
Gates confessou que escreveu pessoalmente 3400 cartas de condolências e admitiu o seguinte: “Não houve provavelmente um dia nos últimos quatro anos em que não tenha chorado.”
Para Gates, o que estava em causa era mais do que um simples documento contendo informação para ser despachado para alguém. O envio de cada carta tornou-se um acto de comunicação litúrgica, como se fosse uma espécie de expiação de todos os pecados do Governo e da Guerra.
Cada palavra naquela carta devia ir além da “informação”... Devia conter sentimentos e emoções. As circunstâncias extremas exigiram um acto comunicacional sublime. Mas estas circunstâncias extremas, ou se o leitor preferir, excepcionais, tanto podem ser negativas como positivas.
Quando Barack Obama, na sua campanha eleitoral em 2008, termina um dos seus discursos com um telegráfico, mas sentido e emocional “Yes, We Can!”, ou quando Alastair Campbell, num momento de genialidade, através da sua pena se referiu a Diana como “Princesa do Povo” poucas horas depois daquela ter morrido, esteve-se perante, momentos de verdadeira inspiração em circunstâncias excepcionais.
É certo que a maioria dos consultores de comunicação jamais terá de lidar com situações extremas deste ou doutro género (Não, e este autor não se está a referir à histeria do “cliente” porque o comunicado tem uma vírgula fora do sítio ou porque o seu nome foi truncado num artigo de jornal).
O quotidiano das consultoras é caracterizado por um processo comunicacional muito formatado e sistematizado, assente num paradigma claramente orientado para a prestação de serviços e obtenção de resultados, e menos vocacionado para momentos inspiradores.
Naquilo que é a realidade diária da maioria dos profissionais das Public Relations, a comunicação institucional ou de produto é trabalhada, sobretudo, com a “matéria-prima” da informação. Pelo meio vão-se envolvendo actores e criando dinâmicas de relacionamento.
Porém, tudo é feito dentro de um quadro pré-programado, fruto de horas e horas de formação e de planeamento estratégico, tal e qual um guião, sobejamente conhecimento pelos consultores, independentemente da agência onde trabalhem. Esta é basicamente a mecânica de funcionamento das Public Relations em Portugal (e não só).
No entanto, e como já aqui foi referido, para lá deste mundo da comunicação “mainstream” (muito importante, diga-se) que vive na normalidade dos tempos, existe um reduto de “comunicadores” que perante circunstâncias excepcionais terão que se transcender na sua resposta.
Sempre que Robert Gates pegou na sua caneta viu em cada carta um momento excepcional de comunicação num ambiente hostil. De pouco serviam os modelos sistémicos, os power points ou os planeamentos estratégicos. Depois do jantar e sozinho, Gates era o último reduto e contava apenas com uma coisa: a sua inspiração.
do métier
o que é nacional é bom
directórios
torre do tombo
lá por fora
David Brain's Sixty Second View
bibliotecas
movimentações
fora da caixa