Sexta-feira, 14 de Março de 2014

[Word of Mouth] Comunicação Emergente


 

Comunicação Emergente

 

por: Nuno Roby Amorim

Assessor de Imprensa Embaixada do Reino de Marrocos 

 

- “Como é que se chama o tipo com quem vamos falar esta manhã e o que é que ele faz?

 

A questão da jornalista no aeroporto da Portela naquela manhã poderia parecer normal caso eu não tivesse entregado previamente a todos os jornalistas um volumoso dossier com uma agenda completa da viagem, biografias de todas as personalidades com quem nos íamos encontrar e ainda uma explicação das instituições bem como a sua respectiva contextualização social, politica e económica. O caderno estava feito de uma forma suave e de fácil leitura com os temas a não excederem uma página A4. Mesmo assim deu para perceber que a maior parte dos membros da imprensa tinha desprezado toda essa informação.

 

Há alguns anos, quando foi coordenador de informação num canal televisivo e tinha que “distribuir” trabalho pela redacção, já me fazia na altura muita impressão enviar alguém para um serviço e ter que lhe explicar o enredo desse mesmo serviço. Alguma parte da redacção não tinha lido os jornais do dia, ouvido a rádio ou acompanhado o seu próprio canal.

 

Quando há cerca de quatro anos me convidaram para fazer a comunicação de um país emergente em Portugal através da sua representação diplomática pareceu-me um trabalho altamente cativante e facilitado pelas excelentes relações bilaterais entre os dois países. Enganei-me redondamente. A imprensa portuguesa desconhece quase tudo o que se passa para além das suas fronteiras. Quando esta mesma comunicação social se aventura na análise ou simples reportagens sobre realidades distantes vem ao de cima uma mão cheia de lugares comuns, vulgaridades, inexactidões, informações repetidas e retiradas de outras fontes e sobretudo conteúdo atrasado e desfasado da realidade.

 

 

Durante estes quatro anos, convidei muitos jornalistas, fiz muitos dossiers, organizei conferências, seminários, editei brochuras, traduzi milhares de documentos e, posso afirmar agora que se fala muito mais e que existe um outro olhar sobre a realidade deste país em Portugal, mas mesmo assim ainda se fala muito pouco.

 

As limitações dos órgãos de comunicação social portugueses são conhecidas e já foram quase todas escalpelizadas. O “factor humano”, vulgo as pessoas, continua a ser em minha opinião, o elo mais forte da cadeia da comunicação. Nunca escrevi um press release sempre achei que era mais fácil pegar no telefone e explicar o assunto a A, B ou C. Tenho 25 anos de jornalismo e creio que sei, modéstia à parte, o que é uma notícia, o que é uma boa noticia. Quando tenho a liberdade de explicar a um ex-colega um qualquer trabalho é porque considero que esse tema dá uma boa “história”. Não estou a vender nenhum produto estou a partilhar um bom tema o que é substancialmente diferente. Dito isto resta explicar o que desde o princípio estou a tentar dizer: o conceito de notícia, de história alterou-se significativamente no seio da comunicação social nos últimos anos. Os média de hoje estão focalizados excessivamente na relação entre a sua produção e a respectiva recepção por parte do mercado. Estão quase exclusivamente dependentes dessa mesma relação no sentido em que a boa recepção significa aceitação que por sua vez significa capital e o capital é o oxigénio da comunicação social em crise quase crónica de financiamento. Neste perspectiva, e uma vez que a maior parte do país só se interessa pelo Benfica e por alguns programas televisivos, tornou-se muito difícil comunicar a realidade de um país emergente. Não por falta de temas interessantes, como já disse, mas por falta de “espaço” nos blocos informativos estejam eles em que plataformas estiverem. Mas se o panorama em termos gerais é tão negativo este mesmo cenário agudiza-se com a ausência de critérios jornalísticos dos próprios jornalistas. A maior parte dos jornalistas, desculpem a expressão, estão-se nas tintas para a realidade de países emergentes porque são temas que não vão ter nenhum destaque entre os seus pares e no seio do mercado consumidor.

 

Um pouco à imagem das ideias do Mundo, o jornalismo e a comunicação contemporânea, são áreas em busca de um rumo novo. Ninguém sabe o que irá substituir o presente capitalismo doente e ninguém sabe mesmo se alguma coisa o substituirá. O mesmo irá acontecer à comunicação e à informação que se encontram num estado emergente de algo novo porque para pior já basta assim.

 

 

 

publicado por Rodrigo Saraiva às 09:08
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1 comentário:
De Rodrigo Saraiva a 16 de Março de 2014 às 11:52
Obrigado Nuno por esta visita ao PiaR e pela certeira e pertinente reflexão.

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