Quinta-feira, 27 de Março de 2014

Um hino que vem com três anos de atraso

 

Há cerca de duas semanas, vários meios de comunicação social assinalaram os três anos das manifestações ocorridos no dia 12 de Março de 2011, que juntaram milhares de pessoas em várias cidades do país, num movimento espontâneo e inédito, por ser apolítico e fruto de um descontentamento geral instalado na sociedade portuguesa.

 

A ideia partiu de quatro jovens amigos, que personificavam as dificuldades e as desilusões que qualquer outro jovem português sentiria, longe de imaginarem as repercussões do movimento que lançariam no Facebook.

 

Para a História, aquela iniciativa ficou conhecida como protesto da “Geração à Rasca”, numa alusão ao célebre título de um editorial de 1994 do então director do Público, Vicente Jorge Silva, onde se questionava (ele não afirmava) se a juventude dos tempos finais do cavaquismo era uma “geração rasca”.

 

Em termos comunicacionais, a manifestação “Geração à Rasca” foi uma autêntica "bomba" que apanhou de surpresa todos os actores do sistema político muito distanciados da realidade do povo. Durante alguns dias, a euforia (e a comunicação) foi muita, com milhares de portugueses esperançados na aurora de um tempo novo.  

 

Mas esse tempo não chegou. O protesto massivo e genuíno não deu lugar ao movimento de mudança, como aliás os próprios quatro amigos hoje reconhecem. Eles, de certa forma, desempenharam bem a sua missão, mas não apareceu nenhum líder carismático para pegar nesse trabalho e dar-lhe o corpo necessário para que se tornasse numa força capaz de se imiscuir no debate político monopolizado pelos partidos.

 

Com o passar dos dias, semanas, a comunicação da “Geração à Rasca” foi perdendo força e o fenómeno rapidamente passou a epifenómeno. Apesar da simpatia e solidariedade mostrada por vários quadrantes da sociedade, tudo se dispersou.

 

E porque terá isso acontecido, tendo em conta o descontentamento real que se instalou sobretudo nas gerações mais jovens? A resposta não estará devidamente estudada, mas, tal como já foi aqui referido, teria sido fundamental que a determinado momento a “Geração à Rasca” fosse adoptada por um líder carismático, forte e mobilizador, vindo de um qualquer sector que não da Política.

 

Além disso, faltaram elementos inspiradores, vitais na eclosão de qualquer movimento de massas. Esses mesmos elementos são veículos essenciais para se comunicar simbolicamente determinadas mensagens e estados de espírito. Uma frase, uma imagem, uma música… Recorde-se, por exemplo, que muitos viram na música dos Deolinda, “Que parva que eu sou”, o hino desse possível movimento. Porém, algo faltava a essa música, por modo a dar-lhe um peso dramático e inspirador.

 

Agora, três anos depois, Tiago Bettencourt lança o single “Aquilo que eu não fiz”, do novo álbum a ser lançado no final da Primavera. Para a realização do vídeo clip pediu, através do Facebook, a colaboração dos seus fãs para enviarem os seus próprios vídeos.

 

Ao ouvir esta música, não se pode deixar de pensar que tem todos os ingredientes necessários para se tornar um autêntico hino de uma “geração à rasca”. É pena que tenha chegado com três anos de atraso.    

publicado por Alexandre Guerra às 17:04
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