Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014

Também a Justiça deve prestar contas e comunicar com os cidadãos

Por mais óbvio que possa parecer para quem faz da comunicação a sua profissão, a verdade é que nesta Era de Informação em que se vive, existem instituições em Portugal sem a capacidade de se adaptarem aos desafios dos tempos e às exigências de uma sociedade (ocidental e não só) cada vez mais interventiva, consciente e, apesar de tudo, mais informada. Uma sociedade que assimilou o direito de se manter informada, sobretudo, por parte dos seus governantes e das entidades públicas que integram e gerem o Estado ao qual todos pertencem. 

  

Nesta matéria, os Estados Unidos são "a" referência. Podem reconhecer-se muitos defeitos àquele país, mas no que diz respeito à preocupação de se criar pontes de comunicação entre entidades públicas e os cidadãos, as autoridades daquele país não brincam em serviço. E, acima de tudo, há uma sensibilidade comunicacional por parte dos agentes da Justiça relativamente à socidade que os rodeia. A este propósito vale a pena ler o comunicado do "attorney general", Eric Holder, a propósito de uma decisão polémica de um "grande júri" no caso da morte de Eric Garner e que está a inflamar a América. 

 

Qualquer acto público, procedimento administrativo, decisão judicial, gestão de "issue" ou de crise, entre outros, que, de uma maneira ou de outra, tenha repercussão no interesse colectivo, pressupõe, automaticamente, a "comunicação" com o cidadão. Isso é levado muito a sério nos Estados Unidos e também noutros países. É do interesse de todas as partes, porque, por um lado, permite às entidades gerirem o fluxo dos factos validados e, por outro, deposita nos "receptores" informação oficial, não sujeita a especulação. 

 

Regressando a Portugal e numa lógica contrária, o Renato Póvoas faz uma observação pertinente sobre a ausência de "liderança comunicacional" das instituições judiciais na gestão da informação relativa à hiper-mediática detenção de um ex-chefe de Governo. Foi um exemplo que se veio juntar a tantos outros, com consequências muito negativas para as instituições e para a sociedade em geral.

 

É difícil de perceber como é que a Justiça e os tribunais em Portugal se mantêm num tempo de Trevas no que à comunicação diz respeito. É dificil perceber como é que os intervenientes judiciais em Portugal continuam a optar por procedimentos comunicacionais que são de um amadorismo confrangedor e, por vezes, a roçar o ridículo -- veja-se o patético episódio da escrivã do Tribunal Central de Instrução Criminal quando anunciou as medidas de coacção no âmbito da operação "Marquês". E tantos outros exemplos se podiam dar.

 

Num verdadeiro sistema de "check and balances" todos devem explicações a todos e também a Justiça deve prestar contas ao povo. E deve informar os cidadãos dos seus actos judiciais sempre que o interesse colectivo assim o justifique. E deve fazê-lo da forma mais profissional possível. Contrate-se assessores, consultoras de comunicação, criem-se gabinetes de imprensa ou direcções de comunicação, e assuma-se, de uma vez por todas, a figura de "porta voz" nos casos mais mediáticos.

 

PS: É inconcebível que o actual Campus da Justiça em Lisboa, inaugurado há poucos anos, não esteja pensado para acolher jornalistas nas mínimas condições de trabalho. Só este facto, por si só, é revelador da mentalidade que reina nas altas esferas da Justiça portuguesa quando chega a hora de comunicar com o povo. 

publicado por Alexandre Guerra às 11:37
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4 comentários:
De Maria a 11 de Dezembro de 2014 às 15:56
Que deve prestar contas a si própria é que está bem. Como pode a justiça estabelecer comunicação com o povo quando a actuação dos magistrados nos últimos tempos tem sido escandalosa? Que esperar também do trabalho de inúmeros pasquins que se denominam de jornalismo de investigação e cujos títulos parecem visar mais influenciar o jogo político do que transmitir a verdade, provocando danos irreparáveis? Não é isto que se quer, com franqueza!
Permita-me que recomende a leitura deste post, muito pertinente e tire as conclusões.

http://transparente.blogs.sapo.pt/

De vaz a 11 de Dezembro de 2014 às 21:48
Não é bem assim, o Campos da Justiça tem os seus acessores de imprensa, credenciados e treinados, as felicias cabritas do Sol e os damasos do CM
De Paulo Lisboa a 11 de Dezembro de 2014 às 22:39
«veja-se o patético episódio da escrivã do Tribunal Central de Instrução Criminal quando anunciou as medidas de coacção no âmbito da operação "Marquês"».

Porquê patético? Ela disse preto no branco e em português os motivos da prisão dos arguidos. Na minha terra chama-se a isso comunicar com os cidadãos.
De henrique pavão a 12 de Dezembro de 2014 às 01:46
Se os juízes contratassem assessores, consultoras de comunicação ou criassem gabinetes de imprensa ou direções de comunicação, com o quadro legal que temos, rapidamente o contratante iria responder perante os Tribunais pela prática de ilícitos graves traduzidos na realização de despesas não consentidas.
P.S. Quem decidiu instalar o Campus da Justiça de Lisboa onde ele hoje está não pensou na comunicação social, mas garantiu ao arrendatário um milhão de euros de renda por mês.

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