Quarta-feira, 12 de Março de 2014

Sobre a arte de titular

 

A arte de bem titular está ao alcance de poucos nas redacções de jornais. E é pena: um bom título é fundamental para agarrar o leitor - podendo, em certos casos, agarrá-lo para sempre.

Falo por mim: nunca mais esqueci o título do obituário do Professor Horus, um astrólogo que chegou a estar na moda em Portugal durante as décadas de 70 e 80. Quando morreu, o Diário de Notícias dedicou-lhe um excelente texto necrológico em que revelava facetas desconhecidas da sua biografia, designadamente ter sido praticante amador de pugilismo na juventude. O título era um achado: "O astrólogo que veio do boxe".

Certos títulos fizeram história na imprensa portuguesa. Alguns incorporaram-se até no léxico comum. Eis um deles: "De vitória em vitória até à derrota final", publicado no extinto semanário O Jornal, durante o atribulado mandato de Francisco Pinto Balsemão como primeiro-ministro, num executivo de coligação PSD-CDS, entre 1981 e 1983. Da autoria do chefe de Redacção daquele periódico, Manuel Beça Múrias, desaparecido demasiado cedo. Poucos como ele dominavam tão bem a arte de fazer títulos. Este - que se generalizou ao ponto de se tornar um aforismo dos nossos dias - foi importante também pelo seu carácter premonitório: o governo Balsemão cairia pouco tempo depois.

Hoje predomina a banalidade: muitas peças ficam estragadas com títulos incapazes de ultrapassar o lugar-comum. Quando surge uma excepção a esta regra anoto-a logo, com entusiasmo. Aconteceu-me a 15 de Dezembro, ao ler no El Mundo (em papel, pois na edição em linha lá surgiu um dos habituais títulos deslavados) o obituário de Peter O'Toole: enquanto outros periódicos se rendiam à linguagem formatada, inundada de clichés, o jornal espanhol deslumbrava com uma frase em título que era quase um poema: "Arenas doradas, mirada celeste". 

T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, haveria de gostar.

publicado por Pedro Correia às 13:02
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4 comentários:
De lpm pessoa a 12 de Março de 2014 às 14:53
Um dia o Beça Murias pediu-me uma reportagem sobre a nova linha de atendimento telefónico criada para assistar casos psicológicos e evitar suicídios. A prosa apareceu com um título genial: "Não vá para o outro mundo, telefone".
De Pedro Correia a 12 de Março de 2014 às 21:54
Grande título, que faz jus ao talento de MBM. Lamento que por estes dias os títulos sejam demasiado formatados e previsíveis. Falta muitas vezes esse arrojo de surpreender o leitor com um golpe de asa que valoriza os artigos e alarga as fronteiras do nosso idioma, que tem potencialidade ilimitadas.
De Rodrigo Saraiva a 13 de Março de 2014 às 12:24
até no jornalismo é preciso Criatividade.
De Pedro Correia a 13 de Março de 2014 às 18:02
Sem dúvida, Rodrigo.

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