Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Os jornais acabaram enquanto negócio. Agora é preciso pensar em mecenato

O anúncio feito pela administração da Controlinveste, no passado dia 11, relativo a "um processo de redução de efectivos no total de 160 postos de trabalho o qual inclui um despedimento colectivo que abrange 140 colaboradores e um conjunto de negociações para rescisão amigável de contrato abrangendo cerca de 20 postos de trabalho", não deixou de ser uma amarga surpresa, mesmo tendo em conta as dificuldades que todo o sector da comunicação social tem atravessado nos últimos anos. 

 

E a surpresa deve-se, sobretudo, à dimensão dos números, com mais de 60 jornalistas envolvidos pertencentes a vários meios da Controlinveste, numa altura em que se pensava que os ajustes mais dramáticos dos principais grupos de comunicação social já tinham sido efectuados. Efectivamente, nos últimos anos, todos os jornais, televisões, rádios e agências noticiosas viveram períodos conturbados, com despedimentos colectivos, ajustes no seu quadro profissional, reformas antecipadas e, em muitos casos, renegociação salarial.

 

Essa foi uma realidade que o próprio autor deste poleiro foi acompanhando em inúmeras conversas de corredor com jornalistas, fotógrafos, editores, directores, paginadores, entre outros. Mas, depois dessa "tempestade", e com as redacções mais "magras", "leves" e "baratas", também se notava que as coisas começavam a estabilizar, com a sensação de que "o pior já tinha passado". Não se perspectivavam, assim, mais despedimentos massivos, como aquele que foi anunciado agora pela Controlinveste. Um número absurdo, tendo em conta que só o DN e o JN vão ficar com menos 44 jornalistas. E, por exemplo, a TSF com menos sete. 

 

Além da dimensão humana deste problema, a questão principal tem a ver com a falta de enquadramento em termos de paradigma com que estas alterações e despedimentos são feitos. Ou seja, está-se perante meras operações contabilísticas, sem qualquer sustentação naquilo que deveria ser o modelo do jornalismo no futuro e do negócio que o sustenta. Isso acontece em parte porque ainda não se sabe bem qual o caminho que o jornalismo deve seguir e, muito menos, que esquema de financiamento o pode viabilizar.

 

Como alguém dizia a este poleiro num almoço recente, fazer depender hoje em dia um projecto jornalístico de receitas de publicidade e de vendas em banca (ou por assinatura) é receita para o desastre... Como, aliás, se viu com projectos editoriais recentes em Portugal, que foram lançados cheios de pujança, mas alicerçados em modelos obsoletos e que, rapidamente, se viram confrontados com a dura realidade dos números. 

 

E nesse mesmo almoço discutiram-se novas formas de negócio que possam viabilizar os jornais e o jornalismo num futuro próximo. E um desses modelos passa por uma espécie de mecenato. Uma possibilidade também observada por João Miguel Tavares num artigo recente do Público. No fundo, parte-se do princípio que tem de haver um investimento financeiro sem uma lógica de lucro inerente (e até mesmo a "fundo perdido"), já que quando uma entidade, seja de que natureza for, decide apoiar uma orquestra, uma equipa de ciclismo, uma exposição ou um projecto escolar não espera dali um retorno monetário. O que está em causa é um outro tipo de "retorno", que pode ser cultural, social ou de outra índole.

 

Este é apenas um caminho que o jornalismo e os jornais poderão vir a seguir nos próximos anos. Para já, ainda não foi encontrada a fórmula que garanta a sua viabilidade saudável para o futuro.

publicado por Alexandre Guerra às 23:15
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1 comentário:
De M a 20 de Junho de 2014 às 09:24
Há para aí muitos mecenas de jornais/jornalistas :)

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