Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

O "papão"

A tenebrosa influência das agências de comunicação na Política, que tudo podem e conseguem, volta a ser tema de "conversa", desta vez no âmbito de um confronto eleitoral intrapartidário em curso. É tema recorrente, mas o problema é que o debate tarda em evoluir nos seus argumentos e, quase sempre, fica amarrado a ideias preconceituosas e formatadas, veiculadas por alguns comentadores e políticos que, pouco ou nada, sabem da realidade em concreto do trabalho quotidiano das consultoras de comunicação ao serviço dos seus clientes, sejam empresas, instituições públicas ou privadas, organizações nacionais ou internacionais, políticos ou partidos.

 

Mas pior, é que esses mesmos comentadores e políticos, num acto de pouca inteligência e sabedoria, parecem não ter interesse em compreender melhor o trabalho das consultoras de comunicação na área da Política. O que, diga-se, não é de estranhar, já que muitos deles descuram a própria essência da comunicação no seu estado mais natural.

 

Não ficaria nada mal a estes comentadores e políticos (que de tempos a tempos evocam o"papão" das agências de comunicação) informarem-se um pouco sobre o que é a disciplina da comunicação política e qual o papel profissional das empresas de "public relations" nesta área. Já agora, podiam começar por ler os textos escritos por Luís Paixão Martins e Rui Calafate, que falam do assunto com toda a propriedade. São, aliás, dos poucos que o podem fazer em Portugal enquanto "players" neste sector de actividade. 

 

Sobre a intervenção das consultoras de comunicação na Política, nada melhor do que estudar a realidade anglo-saxónica, embora haja outros exemplos que mereçam atenção, nomeadamente, o micro-sistema político de Bruxelas. Além do mais, há muitos manuais e literatura sobre o assunto. É que por mais excitante que seja associar o trabalho das agências de comunicação a parques de estacionamento subterrâneos obscuros, onde protagonistas vestidos de gabardine trocam dossiers secretos, a realidade é bem menos hollywoodesca.

 

Parte do trabalho de comunicação política feito por consultores e agências prende-se com assessoria de imprensa, gestão de redes sociais, produção de conteúdos, elaboração de material gráfico e edição de imagem com a respectiva propagação digital, entre outras coisas que em nada se distinguem daquilo que pode ser uma tradicional comunicação empresarial. Claro está que depois existe todo um espectro de actividade que, quando há "know how" para isso, passará, por exemplo, por aconselhamento estratégico, sondagens, pesquisa, contactos formais e informais...por diante. E se noutros países este é um trabalho altamente valorizado, infelizmente, em Portugal, às vezes contratam-se agências por valores que deveriam envergonhar todo um sector, já que a relação preço/hora ficará pouco mais acima do que aquilo que uma "mulher a dias" cobra (passe o eventual exagero e com todo o respeito por esta digna e necessária actividade).   

 

A questão do valor da actividade da consultoria em comunicação política (tal como noutros sectores) está directamente relacionada com a "importância" que os supostos clientes lhe dão. E aqui, ao contrário do que acontece na lei de mercado e na sua relação entre "oferta" e "procura", a questão coloca-se, mesmo, ao nível da "importância" que lhe é atribuída por um determinado cliente e não tanto ao nível da "procura". Porque, é efectivamente verdade que são cada vez mais os políticos a contratarem agências de comunicação em Portugal, mas isto não significa que valorizem esse serviço e que o vejam do modo profissional que o deviam ver. E aqui, muitos actores da área política em Portugal, ainda não perceberam os custos significativos de uma má comunicação. Não perceberam que numa sociedade cada vez mais exigente, não há espaço para amadorismos. Um político não tem necessariamente de brilhar, não pode é cometer erros. 

 

Um consultor de comunicação não deve ser contratado para fazer milagres, tal como de um treinador de futebol nunca se deve esperar que transforme um jogador mediano num génio da bola. Porém, isso não quer dizer que este mesmo jogador não seja vitorioso nas organizações onde esteja inserido. O mesmo acontece com políticos. Quantos não houve que de carisma tinham pouco, e de genialidade ainda menos, e não foi por isso que deixaram de fazer Política ao mais alto nível. Com trabalho e profissionalismo, pode-se chegar lá. Mas o inverso também pode ser verdade: o talento está lá, mas depois falta todo o apoio profissional para desenvolver e trabalhar esse mesmo talento. Normalmente, isso acaba naquilo que se chama "passar ao lado de uma grande carreira".

 

Os políticos devem perceber que uma má comunicação não acarreta apenas custos políticos, implica também custos para Portugal, que se reflectem na forma como as pessoas percepcionam todo o sistema político e os actos daqueles que as governam.

publicado por Alexandre Guerra às 16:14
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