Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

A comunicação de uma morte anunciada

A Sky Real Lives, um canal da rede Sky do Reino Unido, emitiu esta noite as polémicas filmagens em formato de documentário (presume-se, a julgar pelos clips disponíveis) dos últimos dias e minutos da vida de Craig Ewert.

 

Aos 59 anos, e sofrendo uma doença degenerativa ao nível neurológico, Ewert decidiu por fim à sua vida na clínica Dignitas, em Zurique, o único local no mundo onde a lei permite que uma pessoa possa recorrer à morte assistida por um médico independentemente do seu estado de saúde. 

 

Perante o sofrimento que a sua doença lhe provocava, Ewert  já não aguentava mais as dores e a sua vida, mas ao mesmo tempo decidiu explicar às pessoas a razão por detrás da sua trágica decisão.

 

O realizador canadiano e laureado com um Óscar, John Zaritsky, teve acesso exclusivo à clínica Dignitas para poder filmar e captar a essência da mensagem de Ewert.

 

 

O assunto foi abordado na Câmara dos Comuns pelo próprio primeiro-ministro, Gordon Brown, que referiu que o assunto deveria ser tratado com a maior sensibilidade, apelando ao bom senso da estação televisiva e alertando as entidades reguladoras britânicas para estarem atentas a eventuais violações da lei. 

 

O documentário foi intencionalmente para ar no dia em que se celebrou o 60º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, enquadrado no debate sobre a problemática da eutanásia e do direito reclamado por muitos de poderem ser livres de escolher o dia e a hora em que querem morrer. 

 

Além do debate sociológico, este é também um caso que deve ser avaliado numa vertente comunicacional. Tratanto-se supostamente de informação, Ewert recorreu ao meio por excelência de comunicação de massas para transmitir uma mensagem.

 

Mas, é aqui que começa a surgir um dilema...

 

Veja-se o seguinte cenário: Existe uma organização ou associação defensora do direito à eutanásia ou suicídio assistido empenhada na sua causa, à semelhança de tantas outras ligadas a variados assuntos. Aquela organização decide intensificar as suas acções através de uma campanha de lobby e de public affairs junto de entidades decisoras, recorrendo também à comunicação como forma de mobilizar os "públicos-alvo" na defesa dos seus interesses. 

 

Para tal, contrata uma empresa de consultoria de comunicação à qual lhe pede que monte uma estratégia. A "agência" aceita o desafio do seu cliente e apresenta uma proposta com várias ideias, entre as quais uma que contempla uma peça de televisão na qual o jornalista acompanhe o doente desde a fase terminal até á altura em que os médicos o declaram como morto.  A proposta refere ainda que o próprio doente é o "speaker" disponível. O objectivo é precisamente comunicar e sensibilizar os públicos-alvo.

 

Será que o cenário acima descrito é puro devaneio da mente do autor destas linhas? Talvez, mas a verdade é que antes de ontem, tal exercício especulativo parecia muito mais absurdo.

publicado por Alexandre Guerra às 00:23
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1 comentário:
De cjt a 11 de Dezembro de 2008 às 09:22
não é absurdo. aliás creio esse cenário inteiramente possível.
o dilema prossegue, pela minha parte, por não conseguir determinar se a actividade da suposta agência seria ou não ética.
sei que esta será uma posição um tanto desconfortável mas considero que a presença de uma agência até poderá evitar um certo grau de violência que a simples reportagem poderia transmitir.
por outro lado, faz-me coinfusão o aproveitamento da morte de alguém para fazer passar uma mensagem empresarial.
creio que tudo isto dependerá de ter sido o "speaker" a solicitar a reportagem ou não. e mesmo assim, o dilema mantém-se. tenho que pensar no assunto.
estou a lembrar-me do man ray.

óptimo post, a provar que uma pergunta vale, muitas vezes, por mil respostas.

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