Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

[Word of Mouth] O país das aparências


 

O país das aparências

 

por: Fernando Moreira de Sá

Consultor de Comunicação

 

A escrita de discursos políticos por terceiros é uma profissão quase tão antiga como a outra. Todos sabem quem escreve os discursos de Obama, quem escrevia os de Aznar (e também se sabia quando era o próprio, para mal dos seus pecados e alegria dos humoristas), já para nem lembrar Sarkosy e se vamos continuar a dar exemplos seria uma sucessão interminável que nem algumas listas telefónicas.

 

O mesmo se passa em Portugal, certo? Errado, segundo as leis do politicamente correcto. No nosso quadradinho das falsas aparências semelhante surge como forte hipótese criminal. Na verdade, a esmagadora maioria dos políticos portugueses, tal como nos outros países, recorrem aos chamados "speechwriter". Só não se assume. Obviamente, existem excepções, as tais que confirmam a regra. Vou ser franco, alguns recorrem a verdadeiros "speechwriter" enquanto outros preferem o Miguel ou a Maria que tiveram mais de 60% nos exames de português. O que, embora possa não parecer, acaba por fazer toda a diferença. Porém, não se pense que são apenas os políticos. O mesmo se diga quanto a empresários, artistas e outras espécies sempre que necessitam de intervir publicamente.

 

Tudo isto a propósito da polémica (?????) peça da "Vespa" do Diário de Notícias. Na sua edição do passado domingo (18 de agosto, página 10) a "vespa" descreve o diálogo no facebook entre António Cunha Vaz e o João Gonçalves. Ainda Pedro Passos Coelho estava nos primeiros minutos do seu discurso e já o consultor de comunicação António Cunha Vaz afirmava, na sua página de facebook, estar na presença do melhor discurso de sempre do Primeiro-ministro levando João Gonçalves a comentar o seguinte: "Mas o homem mal começou a falar, António. Que notável presciência", tendo tido como resposta do autor:"João, pois, por que será". Ora, foi esta resposta que levou a "Vespa" a concluir que o discurso em causa tinha sido escrito por António Cunha Vaz. Ignorando, se de forma propositada ou não desconheço, que mais tarde o autor do post tivesse esclarecido que não tinha sido ele.

 

Não seria nenhum crime se tivesse sido ACV a escrever o tal discurso. Estou certo que já o fez com outros clientes como, certamente, os autores deste blogue que são, igualmente, consultores de comunicação o fizeram com alguns dos seus clientes. Eu já o fiz e faço com muito prazer e não me caíram os parentes na lama (nem aos clientes). Faz parte do nosso trabalho e em nada se está a inovar. O problema é outro.

 

Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos e nalguns países europeus, em Portugal este tipo de trabalho é quase secreto. Quase. Faz lembrar a maçonaria em Portugal: é vista como uma sociedade secreta mas todos a conhecem e a lista dos seus membros até surge publicada nos jornais. Segredos de polichinelo. 

publicado por Rodrigo Saraiva às 08:53
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