Terça-feira, 18 de Junho de 2013

"Profissão, repórter." Será mesmo?

Público, 18 de Junho de 2013


Com uma ou outra excepção – mas de gente que já nem sequer exerce a profissão de jornalismo –, em Portugal não existem repórteres de conflito ou de guerra. Daqueles com tarimba e espírito de aventura, que inspiram e que devolvem toda a dignidade e nobreza ao jornalismo, e não daqueles “queixinhas” e que estão sempre a centrar a “história” em si. Daqueles que, humildemente, servem a sua profissão como uma missão e não apenas como um lugar assalariado, alimentando vaidades, egos e interesses corporativos.

 

É preciso notar que não há jornalismo de excelência sem reportagem e não há reportagem sem repórteres. E se os princípios gerais orientadores de um qualquer repórter podem ser considerados comuns, já as características necessárias para um jornalista fazer da cobertura de cenários de conflito e de guerra a sua vida são ímpares. Aliás, basta ver o espírito e a vida de sacrifício de algumas das maiores referências mundiais neste tipo de jornalismo. Este poleiro dá apenas o exemplo do luso-sul africano, João Silva, sobre quem já escreveu algumas vezes.  

 

Este autor nunca mais esquece o patético episódio do Iraque, há uns anos, onde uma “excursão” de jornalistas nacionais sem qualquer vocação e preparação para aquele tipo de cenário acabou por acabar com um tiro no rabo dessa grande “repórter” de guerra chamada Maria João Ruela. E a partir daí, essa foi a história jornalística do Iraque que os portugueses passaram a conhecer. Aliás, Ruela passou de imediato à condição de estrela. Mas enfim… adiante.

 

O exemplo de João Silva e de outros repórteres daquele calibre devia envergonhar alguns jornalistas “vedeta” que por aqui andam nas redacções deste burgo, pavoneando-se com um “estatuto” intocável, que rapidamente é desconstruído quando confrontado com a realidade dura do terreno. Aqui, quando as coisas “aquecem” um pouco mais, esses “grandes repórteres” transforma-se em autênticos “meninos”.

 

O sacrifício e a coragem ficam no quarto de hotel e a missão jornalística é rapidamente esquecida, para dar lugar a um jornalismo de curiosidades e banalidades, com muita exposição do próprio jornalista, onde em muitos casos ele próprio se torna o centro da história.

 

Paulo Moura, esse “grande repórter” do Público (que noutros tempos já assinou alguns trabalhos de grande qualidade), espelha hoje em dia essa tendência. A sua patética crónica “Profissão, repórter”, assinada esta Terça-feira, é o corolário de um caminho que aquele jornalista tem vindo a percorrer e que só podia acabar em desastres como estes: “Nas imagens pode ver-se como lutei destemidamente contra as forças da repressão (exactamente como fazem os cidadãos turcos quando são apanhados assim nas malhas da autoridade).” Como se não bastasse, conclui: “Em jeito de conclusão, direi que estes polícias tiveram muita sorte. Se eu não estivesse um pouco atordoado pelo gás, tê-los-ia corrido todos à chapada.”  

 

O autor deste poleiro nem sequer discute o número de regras jornalísticas que aqui foram violadas, mas é confrangedor ver a criancice em que Paulo Moura caiu.

 

E isso leva a outra questão que o autor deste poleiro tem discutido com alguns jornalistas: Por que razão é que são sempre os mesmos jornalistas a serem destacados para estes serviços? Mesmo quando o seu trabalho há muito se tornou um mar de banalidades.

 

Voltando àquela crónica, é lamentável que se pretenda passar para o leitor uma janela da realidade que não corresponde à verdadeira natureza dos acontecimentos. Porque, o que aquilo que o jornalista oferece é um relato da “sua” realidade. E essa nunca será a realidade do terreno.  

 

É preciso notar a forma estridente como se descreve o que se passa em Istambul, efectivamente uma “brincadeira de crianças”, quando comparado com outros cenários bem mais “quentes”. Aliás, esta mania de hiperbolizar alguns acontecimentos em palcos mais agressivos é outro dos vícios que se tem verificado em reportagens dos meios de comunicação social nacionais.

 

Este poleiro recorda acontecimentos recentes, de manifestações em Lisboa, em que os relatos dos “repórteres” no local eram no mínimo ridículos e desproporcionados, tendo em conta ao que se passava efectivamente no terreno.

 

Paulo Moura assume em título a profissão de “repórter”. Mas, será mesmo? Porque ser repórter é precisamente o contrário daquilo que o próprio descreve na sua crónica… Ser um verdadeiro repórter implica sacrifício e dedicação. Poderá implicar, literalmente, apanhar nas “trombas”, ser roubado ou humilhado… Mas no final, “o” repórter, sem “queixinhas” e “lamentos”, levanta-se e reage para contar a história que interessa. E essa história nunca envolve o jornalista.

 

Declaração de interesses: Este autor, enquanto foi jornalista, experimentou, por sua conta e risco, a vivência em cenário de conflito, nomeadamente por duas vezes no Médio Oriente, em 2001 e 2002, em plena intifada de Al Aqsa, nuns dos piores momentos do conflito israelo-palestiniano. Da primeira vez, chegou a estar dois meses a viver em Bir Zeit, na Cisjordânia e não em qualquer hotel em Jerusalém ou Telavive. Da segunda, foram apenas alguns dias, regressou à Faixa de Gaza e furou um bloqueio a Ramallah, durante o bombardeamento à Mukata de Yasser Arafat. Apontamentos noticiosos foram muitos e escritos. Quanto a histórias pessoais, foram algumas, é certo, mas essas ficaram para contar aos amigos.

publicado por Alexandre Guerra às 17:07
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3 comentários:
De Maria Araújo a 19 de Junho de 2013 às 15:04

Gostei do que li.

De raquel a 19 de Junho de 2013 às 16:00
Este ano candidato-me à universidade. Vou seguir Ciências da Comunicação (Jornalismo), porque quero ser repórter. Espero vir a contrariar a tendência que neste fantástico post expõe e aborda.
De Alexandra a 19 de Junho de 2013 às 18:49
"Quando o jornalista é notícia, algo está mal". Ouvi isto numa das aulas do curso de Comunicação Social.
Neste caso, o texto é uma crónica, o que torna menos grave a situação. A crónica pode ser pessoal mostrar opinião e ter algo de "poético" ou romanceado. Ainda assim, acho que deveria ter deixado arrefecer o tema para depois contar o que viveu, num livro de memórias, quem sabe.
O que não falta por aí são "repórteres" que mais não fazem senão contar histórias de encantar (leia-se choriços para encher audiências).

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