Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

O jornalismo e os jornalistas em Portugal

 

Em várias conversas, com amigos, colegas ou simples conhecidos, o autor deste poleiro nunca escondeu que a sua grande paixão foi e será sempre o jornalismo. Há alguns anos arredado dessa actividade, depois de ter enveredado pela não menos entusiasmante área da consultoria de comunicação, é com bastante lamento que constata que o jornalismo em Portugal está a morrer. E entenda-se por jornalismo a nobre profissão que tem em consideração a verdade e o interesse público. Tão só isto.

 

Enquanto consumidor de informação diária, não apenas por gosto, mas também por imposição profissional, vai-se tornando cada dia mais penoso a confrontação com o “produto” final da comunicação social.

 

E neste texto nem sequer vem à baila a problemática económica e a asfixia financeira resultante das quebras da publicidade. O problema aqui focado é bem mais antigo e já vem de longe.  

 

A matriz do jornalismo perdeu-se algures, a tal referência que cada jornalista (editores e directores incluídos) devia ter sempre presente na orientação do seu trabalho.

 

O rigor, o conhecimento, a perseverança, a humildade, a discrição, o distanciamento, tudo se foi esbatendo ao longo dos anos no jornalismo em Portugal.

 

Os jornalistas tornaram-se arrogantes, vaidosos, sacralizaram-se, passaram a achar-se intocáveis e esqueceram-se da sua missão. Há por aí uma geração de jornalistas entre os 40 e 60 anos particularmente acomodada, desleixada, intransigente e que se acha o farol do conhecimento (assim de repente este autor lembra-se de meia dúzia de nomes). A malta dos 30 anos sofre de outro problema: incompetência e ignorância. Dos 30 (se não dos 35) para baixo entra-se no admirável mundo dos estagiários e dos ordenados de 600 euros.

 

O produto final é cada vez pior, seja nos jornais, nas televisões, ou nas rádios. Quem está um pouco mais atento a este fenómeno vê diariamente a hecatombe daquilo que já foi uma instituição que se fazia respeitar.

 

Na maior parte dos casos os jornais transformaram-se em repositórios de egos, sem qualquer talento, onde alguns cronistas se juntam à festa, crentes do seu valor, como se de um acto de fé tratasse.

 

Já agora, o autor destas linhas sabe (com toda a certeza) que em Portugal apenas existem um ou dois cronistas que contribuem, efectivamente, para a venda de jornais. Todos os outros vivem no seu mundo da fantasia, acreditando que o povo vai à banca comprar um jornal para os ler.

 

Como se tudo isto não bastasse, os critérios editoriais (quais critérios?) esfumaram-se, as grandes reportagens que ainda vão existindo são pouco sustentadas e deixam sempre espaço para desmentidos e dúvidas. E depois andam por aí ainda uns jornalistas apelidados de “grandes repórteres” que não se sabe que grandes reportagens fazem.

 

Há também os jornalistas que já se esqueceram do seu código deontológico e deixam-se levar pelas emoções, acabando por dar ao leitor tudo menos um trabalho jornalístico de qualidade.

 

Há ainda umas vedetas que se passeiam pelas redacções, mas que na verdade poucas notícias dão e raramente “tiram o rabo” da cadeira e vão para a “rua”.

 

E como Portugal é um país de “modas” há uma que está muito em voga: a publicação de notas editoriais sucessivas para justificarem artigos anteriores. Por mais errados que estejam, lá surge uma nota editorial a justificar perante os leitores a “verdade” daquele mesmo artigo.

 

Outra constatação curiosa é a de que em Portugal os jornais parece que nunca erram, já que este autor não se lembra de um único caso em que membros de direcção ou com responsabilidades editoriais de um jornal tenham apresentado a sua demissão. Apesar de terem sido muitos e graves erros que se verificaram nos últimos anos em jornais. Assim de repente vêm à memória vários casos vergonhosos, mas perante os quais ninguém assumiu responsabilidades.

 

Por menos, o autor destas linhas recorda-se de demissões no New York Times ou na BBC News. Ou seja, verifica-se o erro (que pode acontecer), mas rapidamente há um assumir de culpa e uma tentativa de melhorar.

 

Quando se olha para o jornalismo e para os jornalistas é importante fazer a distinção das várias áreas de interesse (política, economia, sociedade, desporto, cultura, etc), porque cada uma delas tem as suas particularidades e os seus vícios.

 

O caso mais exemplar da podridão que se apoderou do jornalismo encontra-se na área da política. É o grau zero do jornalismo, onde a promiscuidade e o autismo dominam as relações entre jornalistas e políticos. Basta ver a cobertura dos assuntos da Assembleia. É algo deplorável e pobre, com as televisões a contribuírem para este espectáculo deprimente.

 

Mas a verdade é que estes jornalistas foram "endeusados" pela classe política, tornando-os seus “amigos” e “protegidos”. Estes, por seu lado, deslumbrados pela importância que lhes davam, foram cedendo à atracção do poder, perdendo focagem e capacidade crítica e de raciocínio.

 

Os políticos, bajuladores e subservientes, deram força a esta relação, sempre na ânsia de recolher dividendos dos seus “amigos” jornalistas. Obviamente, que têm sido muitas as vezes que esta dinâmica provoca um efeito boomerang. Concomitantemente, esta equação perversa vai colocando os jornalistas em posições de fragilidade, como ainda recentemente se viu com um caso que aconteceu num diário de referência.

 

É uma espécie de sistema que se retroalimenta, deixando de fora o interesse do leitor.

 

O jornalismo cultural é outra das áreas completamente descredibilizada, dominada por feudos. Alguns jornalistas, totalmente instalados, escrevem para eles próprios e para alguns “amigos”.

 

Há bastante tempo um destacado “opinion maker” neste burgo dizia, com bastante razão, que em Portugal não existia verdadeira crítica literária, precisamente porque todo esse trabalho jornalístico é regido por “interesses” e alinhamentos que desvirtuam por completo a missão de informar objectivamente.  

 

Aliás, não deixa de ser curioso quando são jornalistas a confidenciar a este autor o seu descontentamento com a abordagem editorial da cultura do seu próprio jornal.

 

Neste mesmo registo é igualmente esclarecedor ouvir jornalistas a lamentarem as opções editoriais dos seus jornais. Mais, é muito elucidativo perceber de que forma, por exemplo na área económica, se faz sentir a pressão dos chamados “interesses económicos”, muitas das vezes de forma dissimulada

 

Basta ler diariamente o jornalismo económico e facilmente se estabelece uma relação entre as empresas “protegidas” e o peso das mesmas na compra de “espaço” publicitário nos meios. Nalguns casos é uma raridade encontrar-se uma notícia negativa sobre uma dessas empresas ou grupos financeiros, apesar de haver muitos casos a noticiar. Neste capítulo, a blogosfera e as redes sociais vieram servir de escapatória perante o silêncio ou a conivência do jornalismo. 

 

Quanto à sociedade, o jornalismo praticado é de um primitivismo e de uma infantilidade inaceitáveis. Nalguns casos chega a ser patética a forma estridente com que alguns e algumas jornalistas se apresentam em televisão. Aqui, tal como nos jornais e nas revistas, são as “modas” do momento que imperam, havendo pouca criatividade e sensibilidade para temas novos. Chega a ser ridículo como, por exemplo, as ditas “news magazines” repetem anualmente dezenas de temas (as melhores praias, os melhores locais para comer, as melhores formas para poupar, as melhores formas para ser feliz e por diante) e ao mesmo tempo rejeitam ideias e propostas inovadoras do interesse do leitor.

 

Perante tudo isto (e muito mais) o povo, na sua sabedoria, reagiu e deixou de comprar jornais (ainda antes da “crise”) e passou a olhar com desprezo para a informação televisiva. É o mercado a funcionar. Mau produto não vende. E mesmo em termos proporcionais, a actual circulação dos jornais diários de referência assume contornos ridículos (refira-se que noutros países existem títulos a subir de circulação ou pelo menos a manter).   

 

Para concluir é importante referir que este texto é apenas um exercício teórico e generalista, porque naturalmente existem casos particulares de bons jornalistas (incluindo editores e directores), assim como de excelente jornalismo em Portugal.

publicado por Alexandre Guerra às 07:56
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