Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

[Word of Mouth] As doenças e a cura do jornalismo português

 

 

As doenças e a cura do jornalismo português

 

por: Rui Catalão

Jornalista

 

A capacidade de convencer os públicos falhou. A transição para o digital fracassou. A gestão das empresas de media ajudou a agravar a situação. Os jornalistas cometeram o pecado de olhar o país e o mundo do cimo de uma fortaleza. A realidade escureceu, a credibilidade fugiu, o dinheiro desapareceu – não necessariamente por esta ordem. Portugal também caiu, é certo.

 

Por estes dias, um debate entre jornalistas tem sempre um ar pesado, difícil de respirar. A Casa de Imprensa, onde algumas dezenas se juntaram no sábado, para discutir os sinais evidentes de crise, não foi excepção. Há um certo sentimento de luto, por muito que o jornalismo não tenha morrido. Está doente, sim, a precisar de cura para várias doenças crónicas. E o processo de investigação para chegar a esse(s) antídoto(s) tem tanto de hercúleo como de tormentoso.

 

São os despedimentos sucessivos. Estão por todo lado há anos e anos, agora chegaram em força ao “Público” – Ricardo Alexandre, jornalista da Antena 1, arranjou uma definição para o futuro do jornal: o “Público remanescente”. Hoje em dia, na verdade, todo o jornalismo português é uma remanescência do que já foi.

 

São os cortes na Lusa, que comprometem não só a agência, mas a rede que dela se alimenta. Em cada redacção, a assinatura da Lusa equivale ao trabalho de quantos jornalistas? Dez? Vinte? Em alguns casos 30? Sim, por aí. As palavras de José Manuel Barroso, antigo presidente do conselho de administração da agência, criam desconforto na plateia. Fala de direcções politizadas num passado que também foi seu, mas ainda de problemas de dimensão. “O número de jornalistas da Lusa cresceu em demasia.”

 

É a venda da Controlinveste, proprietária do “DN”, do “JN”, d’”O Jogo” e da TSF, a aparentes desconhecidos. E aí é Adelino Gomes, um dos promotores da carta aberta “Pelo jornalismo, pela democracia”, a acertar na descrição. “São 150 anos de história do jornalismo português que vão ser alienados a um grupo sem rosto.”

 

É o fecho de inúmeras publicações, das revistas de automóveis à imprensa regional e local.

 

O diagnóstico é duro.

As gerações mais antigas não souberam (alguns também não quiseram) reconverter-se para trabalhar em novas linguagens. “Fomos engolidos por um tsunami digital”, diz Joaquim Vieira. “Os media não souberam antecipar esta evolução.” Mas as gerações mais novas também têm problemas. Faltam-lhes referências, falta-lhes a memória dos mais velhos. E todos perderam com a (auto-)elevação do status, da importância que os jornalistas deram a si próprios, da linha ténue entre a força enquanto quarto poder e a promiscuidade com os outros poderes. “Olhámos demasiado para o nosso umbigo”, assume Adelino Gomes.

 

O desafio é ainda mais relevante. “Temos de saber persuadir o público par a importância do jornalismo na democracia”, indica Ricardo Alexandre, que também sugere a criação de cooperativas, de pequenas estruturas para dar emprego a jornalistas sem trabalho. Jorge Wemans, ex-director da RTP2, aponta para a diferenciação, porque a homogeneidade nos conteúdos, de órgão para órgão, põe em causa a relevância dos media. Até porque “os mecenas não duram para sempre”, reconhece Joaquim Vieira.

 

Infelizmente, o esforço colectivo de encontrar soluções redunda num vazio prático. Da Casa da Imprensa saem, um após um, rostos preocupados, abatidos, desiludidos. Todos sabemos o que não queremos, embora vejamos esse rumo assumir proporções cada vez mais significativas. Para recuperar os seguidores perdidos, resta-nos o que ainda sobra de esperança e lucidez. É preciso convencer as pessoas de que precisam da informação, mesmo que esta seja, no imediato, produzida por menos pessoas (e mais mal pagas).

 

A inversão da tendência dependerá sempre das noções de credibilidade e relevância, das ferramentas que os jornalistas tiverem ao seu dispor para trabalhar a informação e da linguagem que utilizarem para transmiti-la aos públicos. O anúncio da migração total da “Newsweek” para o digital e a nova edição do “New York Times” no Brasil são faróis que podem servir de guia a um país inevitavelmente atrasado na evolução do jornalismo. Não quer dizer que quer um, quer outro estejam absolutamente certos, dado que em qualquer dos casos também há falhas e erros. Mas são indicadores importantes vindos de quem já vai uns passos à frente.

 

O caminho está na reinvenção do jornalismo e dos jornalistas. É essa a cura para as doenças.

publicado por Rodrigo Saraiva às 09:44
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