Sábado, 22 de Setembro de 2012

A "vaca sagrada" que já devia ter sido sacrificada

 

Tal como a Índia, Portugal é um país de “vacas sagradas”, a diferença é que neste burgo as espécies veneradas são bípedes e não quadrúpedes. Isto resulta de um hábito que existe em Portugal, ser-se acrítico em relação a figuras “instaladas” e aceitá-las eternamente como faróis de referência em várias áreas da sociedade, nomeadamente no panorama informativo das televisões nacionais.

Um fenómeno que se verifica em relação a pessoas que, em muitos casos, andam por cá há muitos anos e que pouco ou nada já têm a dar aos telespectadores.

São pessoas que, por mais incompetentes que sejam, por mais “fora do prazo” que estejam, por mais desajustadas da realidade que estejam, por mais esquecidas que estejam das regras básicas da profissão, por mais que tenham perdido a noção do ridículo e por mais que sejam do desagrado do público em geral, continuam a ser (incompreensivelmente) intocáveis por parte das suas administrações e a ser alvo de admiração dos seus interlocutores.

Mário Crespo é uma dessas pessoas, um jornalista em decadência que há muito perdeu o “Norte” da sua profissão, mas que continua a ser objecto de uma deferência quase submissa dos seus convidados, maioritariamente políticos.

Aquele Jornal das 9 na SICN torna-se, por vezes, um exercício quase patético, com entrevistas em que Mário Crespo faz mais opinião do que produz informação, em que, por vezes, pouco se percebe o que diz (dicção péssima a um volume imperceptível) e a informação é escassa. O “frente a frente”, com os “cromos” do costume”, é um momento sofrível, sobretudo quando os convidados se viram para o moderador com um “ó Mário”.

Em tese este tipo de proximidade não tem qualquer problema, que aliás é muito ao estilo americano, mas no caso do “frente a frente” de Mário Crespo há algo que não soa bem, não são a genuíno. Cheira mais a bajulação por parte dos entrevistados e a promiscuidade entre todos.  

A tudo isto associa-se uma péssima imagem de Mário Crespo, contrastando com as muitas caras bonitas, jovens e competentes que a SICN tem.

Porém, além destas questões, o principal problema reside na ausência de credibilidade de Mário Crespo. Uma credibilidade que se foi perdendo nos últimos anos, com a sucessão de inúmeros episódios lamentáveis, sendo a polémica da RTP apenas o último deles.

Muitos já se esqueceram da célebre ida de Mário Crespo à Comissão de Ética parlamentar, em Fevereiro de 2010, onde se meteu a distribuir fotocópias de um texto supostamente censurado no Jornal de Notícias e onde exibiu uma t-shirt que dizia “Eu ainda não fui processado pelo Sócrates”. Um gesto inaceitável para um qualquer jornalista, independentemente da validade (ou não) das acusações. Crespo quis dizer ao mundo que estava a ser vítima de uma campanha do Governo para o calar. Meteu-se, por iniciativa própria, no centro da notícia.

Na altura, toda esta polémica causou-lhe inúmeros constrangimentos enquanto pivot da SICN, colocando-se claramente numa posição incómodo para acompanhar jornalisticamente os temas da actualidade que se referiam às matérias do relacionamento do Governo com os meios de comunicação social.

A última polémica, espoletada esta semana, pôs a descoberto as fragilidades e o descaramento de Mário Crespo, ao vir criticar o despesismo da RTP que ele próprio ajudou a criar, com 22 anos daquela casa, alguns dos quais em Washington. Onde, dizem publicamente alguns responsáveis da RTP e outra fonte ouvida pelo PiaR, o seu trabalho como correspondente deixou muito a desejar. Disseram a este poleiro que Mário Crespo considerava-se uma espécie de “vedeta”, para quem não se podia ligar a determinadas horas para fazer um serviço, mesmo que fosse da maior importância.

Efectivamente, se o leitor deste texto fizer um exercício retrospectivo dificilmente se lembrará de trabalhos relevantes de Mário Crespo em Washington, onde esteve entre 1991 e 1997.

A “guerra” pública que Mário Crespo declarou há muito à RTP e a antigos colegas seus, tornando-se num comportamento quase obsessivo e que é transposto para o Jornal das 9, é igualmente uma deselegância para com uma “casa” onde trabalhou mais de duas décadas, apesar dos problemas que esta possa ter.

E tudo se torna ainda mais embaraçoso para Mário Crespo e revelador da sua incoerência, quando se propõe, por iniciativa própria, regressar à RTP, mais concretamente ao cargo de correspondente em Washington.

Esta semana foi divulgada pelo DN a carta que Crespo enviou ao antigo presidente da RTP, Guilherme Costa, a 1 de Janeiro de 2012, a manifestar essa vontade, embora na altura já tinha sido tornando pública a intenção de Mário Crespo.

Dizem que a atitude de Mário Crespo, sobretudo nas críticas que faz a antigos colegas seus da RTP, está a provocar algum desconforto entre os próprios profissionais da SIC, o que não é de estranhar, diga-se.

Como se tudo isto não bastasse, Mário Crespo utilizou a emissão do Jornal das 9 da passada Quarta-feira para se justificar, num espectáculo deprimente, de que o autor destas linhas não tem memória de algo semelhante. O pecado original começa logo quando Mário Crespo diz: “Nos últimos dias, eu…”. Mais uma vez no centro da notícia.

Perante tudo isto, o que é estranho é a passividade da Direcção de Informação da SIC e, em última instância, de Francisco Pinto Balsemão.

Mário Crespo há muito que perdeu a credibilidade, sendo este um requisito incontornável para um qualquer jornalista, sobretudo para um pivot televisivo que, como se sabe, é um veículo fundamental para informar a opinião pública com rigor e isenção. Por isso, chegou a altura de sacrificar esta "vaca sagrada" e "remodelar" aquele espaço informativo.

publicado por Alexandre Guerra às 14:42
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