Terça-feira, 21 de Agosto de 2012

A Escola do Expresso

A Escola de Atenas, Rafael (1483-1520), Palácio Pontifício, Cidade do Vaticano

 

A lista dos “50 livros que toda a gente deve ler” elaborada por um grupo de “iluminados” do Expresso, e que este autor teve conhecimento através do post da Virgínia, é um exercício que revela o que de pior há na suposta elite intelectual portuguesa.

 

Se a rubrica do Expresso fosse algo como as “nossas escolhas” ou os “nossos livros preferidos”, ou então “obras de referência”, este poleiro inibia-se de qualquer comentário, respeitando a liberdade de cada um ler (ou fazer) aquilo que bem entende e de poder partilhar as suas preferências. Se fosse esse o caso, estaria-se apenas no campo subjectivo de uma saudável discussão de gosto.

 

No entanto, esta lista do Expresso é outra coisa. É uma espécie de “roteiro” para que a mais simplória pessoa possa ver a luz da sabedoria e ascender à condição de membro de pleno direito na “cidade” (por falar nisso, em tanta sabedoria junta, ninguém referiu a incontornável “Política” de Aristóteles).

 

Esta lista elenca aquilo que todos os cidadãos “devem” ler. Alinhando pelo mesmo princípio, podia ser também uma lista daquilo que “toda a gente” devia "ouvir", "comer" ou "fazer".

 

A lista apresentada espelha a tentação que a elite intelectual deste burgo tem para desempenhar o papel de “educadora” dos menos esclarecidos. Já para não falar no snobismo (e também parolice), porque a julgar pelas obras referenciadas para “toda a gente” dir-se-ia que Portugal é um país de eruditos.

 

E na verdade não é assim, nem tem que ser. Isto faz lembrar a tal conversa de outros anos (mas ainda com adeptos) que todos tinham de ser “doutores” ou “engenheiros”. Hoje, percebe-se que o importante é cada um seguir a sua vocação, seja ela qual for, da forma mais profissional possível e com muito empenho.

 

As “elites” portugueses rendem-se quase sempre à vaidade, esquecendo-se que as escolhas feitas não são para “toda a gente”, nem devem ser, seja por uma questão de gosto, de prazer ou de predisposição (embora todos os possam ler).

 

O autor destas linhas facilmente elaboraria uma lista de 50 coisas que os ilustres Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia “devem fazer”, sabendo à priori que estes dificilmente riscariam nem que fossem cinco “tarefas” dessa mesma lista.

 

O que não deixa de ser natural, tendo em conta os diferentes gostos, prazeres, idades, interesses, mundos em que se movimentam, e por aí fora, entre o autor destas linhas e aquele “grupo” de eruditos.

 

Seria, assim, um exercício de pura sobranceria e de cegueira intelectual que este vosso autor ousasse listar 50 coisas que “toda a gente deve fazer”, ou 50 livros que “toda a gente deve ler”, ou 50 músicas que “toda a gente deve ouvir”, sempre numa perspectiva paternalista com o objectivo de contribuir para evolução do estádio da educação dos cidadãos.

 

Seja como for, olhando para a lista do Expresso, menos mal quando os eruditos já aqui referidos se ficam pelo “deve”, porque ainda não chegou tempo das elites dizerem ao povo aquilo que “têm” de ler.

publicado por Alexandre Guerra às 17:25
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1 comentário:
De na primeira pessoa do singular a 27 de Agosto de 2012 às 10:38
olhei para a lista e pensei: já li 5!

e depois pensei melhor, já li uns milhares, e os outros 45 ainda não me dizeram falta

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