Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

reflexões sobre a comunicação como negócio (parte 3 e última)

 

 

"The Association exists to raise standards in PR and communications, providing members with industry data, facilitating the sharing of communications best practice and creating networking opportunities" (do site da PRCA, consultado a 08/02/2012)


Olhemos agora a questão do valor dos serviços prestados. Ao contrário do que a citação possa sugerir não me vou referir (exclusivamente) ao associativismo da indústria. O leque daqueles que afectam e são afectados pelo tema (as chamadas partes interessadas, ou na linguagem corrente, e no original "stakeholders")  é vasto.

 

Salientaria apenas alguns:

-empresários/empresas do sector

-empregados do sector

-associações sectoriais (J)

-universidades e politécnicos (órgãos dirigentes e técnico-científicos)

-docentes e formadores

-media (trade e económicos)

-ministérios (no topo dos quais se identificam: educação, economia, emprego)

 

Todos estes (e mais alguns) contribuem para a criação de valor do sector. Uns porque formam os futuros profissionais, outros porque dele falam e escrevem, outros porque têm competências regulamentares e legais, alguns porque supostamente representam ou deveriam representar o sector junto de outras classes profissionais e socioprofissionais,  outros porque diariamente executam qualquer tipo de tarefa que exemplifica e demonstra aquilo que é o contributo da comunicação para a vida das organizações e para as empresas em particular.

 

Mas para estarmos onde estamos algo não está a funcionar como deveria. Alguma destas partes profissionais não estão a contribuir para a geração de valor, e outras, inclusive, estão a destruir valor.

 

A ideia de valor é central para a análise. Do ponto de vista mais filosófico valor pode ser vista como a capacidade intrínseca de um bem ou serviço produzir utilidade funcional. De um ponto de vista mais prático, e numa perspectiva mais empresarial, algo tem valor porque nós preferimos e o consideramos mais ou menos fundamental na nossa existência e acção.

 

"Value refers to physical objects, services, or activities that are perceived by an individual or a social group as desirable. Value is a judgment made by individuals and communities that emerge in the context of interactions among economic actors and those that seek to influence them. Together they enact the specific value provided " (Maas: 2009)

 

Ora se tomarmos como boa a perspectiva apresentada por Maas, o valor de um serviço vai variar de acordo com a percepção existente sobre o mesmo. O mesmo bem ou serviço para pessoas diferentes ou em diferentes momentos do tempo poderá ter avaliações diferentes.

 

A forma como a comunicação é percepcionada neste momento do tempo e espaço é resultado dos factos passados e presentes. É fruto do comportamento dos actores. São eles que emitem os sinais que vão ser considerados pelos decisores nos momentos-chave. E se os sinais são de uma certa natureza inevitavelmente as avaliações vão ser de uma certa ordem.

 

As consequências são públicas e notórias do percurso até ao momento: as empresas do sector ganham, em unidade monetária hora/homem, menos do que outras áreas de consultoria (serviços jurídicos, contabilísticos, estratégicos e de gestão, etc..), um director de comunicação ganha em média menos do que qualquer outro director, as áreas de comunicação são as que mais rapidamente são afectadas em movimentos de optimização orçamental (desculpem-me o eufemismo), de reengenharia de funções e de concentração organizacional (com ou sem deslocalização). 

 

A área de comunicação é das que menos conta nas arenas empresariais.

 

Em minha opinião isto tem causas claras:

-desconhecimento por parte dos decisores do perfil da área e dos seus graus de intervenção;

-a comunicação enquanto área funcional não disponibiliza demonstrações claras do seu contributo para o sucesso (seja ele financeiro como social) das organizações;

-existe pouca ou deficiente formação técnica daqueles que trabalham na área;

-não existem movimentos de concertação dos vários stakeholders do sector no sentido de dotar o sector de capacidade de influência sobre mercado e sociedade.

 

Aquilo que me surpreende (que ando há uns anos nestas coisas) é que há 20 anos atrás nós íamos a Espanha e, com ilustres excepções, o panorama era idêntico ao Português, ou seja, a percepção de valor dos serviços era idêntica em ambos os lados da fronteira. Passados estes 20 anos a diferença é abissal.

 

Nota final: com este texto concluo as minhas reflexões sobre a comunicação como negócio. Enquanto as Universidades não criarem parcerias com a indústria, enquanto não houver mais investigação científica sobre a área, enquanto não se começarem a aplicar os modelos de avaliação de comunicação que um pouco por todo o lado vão demonstrando a sua utilidade , enquanto não se criarem associações, uniões, federações (whatever) que focalizem interesses e que contribuam para a dignificação do sector e dos seus actores, nada vai mudar. Nunca vi nenhuma batalha ou guerra ser ganha na história da humanidade (por muito infeliz que seja o exemplo)  por causa do número de medalhas que os generais tinham ao peito, nem tampouco vi algum exército sair vencedor quando no quartel-general os oficiais discutiam a qualidade e o mérito dos seus regimentos, entre si.

publicado por Antonio Marques Mendes às 18:33
link do post | comentar | favorito

autores

Contacto

piar@sapo.pt

tags

todas as tags

links

twitter wall @blog_PiaR

arquivos

pesquisar

subscrever feeds

Visitas ao poleiro