Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Para comunicar bem é preciso conhecer as gentes de Portugal

 

A reportagem passou pela primeira vez no início de Outubro na TVI, mas só no Sábado à noite o autor deste poleiro a viu, em repetição na TVI 24. A (boa) surpresa foi imediata, já que são raras as vezes que se vislumbra nas televisões nacionais trabalhos de reportagem com qualidade superior e abordagens inteligentes, sem se cair no discurso lamechas, simplista e, por vezes, paternalista.

 

Neste caso, o jornalista Paulo Salvador conseguiu fazer da reportagem Gente da Minha Terra uma história crítica e emocional (ao estilo americano), numa visão sagaz da ruralidade, dando voz às suas gentes, que veiculam uma sabedoria popular com notas de requinte comunicacional.

 

Foram dois mil quilómetros pelo interior de Portugal, durante os quais o jornalista falou com várias pessoas, a quem muitos “iluminados” em Lisboa gostam de chamar de País “profundo” (seja lá o que isso for).

 

A lição dada por estas pessoas não fazem estranhar quem, de facto, vê e sente o país para lá dos poucos quilómetros quadrados que delimitam o Centro de Lisboa, onde o ambiente é rarefeito e as caras de sempre convivem hermeticamente nos restaurantes do costume e se cruzam nos “corredores” do poder.

 

Na verdade, o autor destas linhas estranha quando vê jornalistas, comentadores (alguns deles já com idade para estarem a contarem histórias aos netos), políticos e outros “pensantes” a falarem com tanta propriedade em nome da opinião pública portuguesa e dos seus problemas, quando nem sequer conhecem as várias realidades envolventes, seja da zona metropolitana de Lisboa, quanto mais do País.

 

Para muitos destes “esclarecidos”, Odivelas, Almada, Barreiro ou Amadora são locais a evitar, com uma classe média “suburbana” (seja lá também o que isso signifique), que não está dotada da faculdade pensante ou crítica. Para esta suposta “elite” de visão centralista, a linha de Sintra parece ser local a evitar, digna de filme do Velho Oeste (nada mais errado e aqui convém salientar o investimento feito pela CP nos últimos anos). Já Cascais é um destino exótico a visitar de vez em quando, apesar de ter uma linha de comboio mais perigosa do que Sintra e graves problemas com bairros sociais.

 

E, por exemplo, sítios "distantes" (leia-se com ironia) como a Ericeira ou Mafra (de onde diariamente milhares de pessoas saem para trabalhar em Lisboa) são para aquelas pessoas sofisticadas da cidade um local de rumaria numa volta saloia de Domingo, uma vez na vida, claro está.

 

Desconhecendo-se os locais, desconhecem-se as suas gentes e as suas dinâmicas. Perante esta equação é impossível haver uma mensagem séria e fidedigna. Como ponto prévio de qualquer estratégia de comunicação, é vital o conhecimento das realidades envolventes. Sem isso, nunca poderá haver uma comunicação eficaz.

 

É por isso lamentável que ande por aí tanta gente a falar com toda propriedade em nome de uma classe média ou dos jovens, desconhecendo por completo as realidades que os envolvem.

 

Além disso, a ignorância anda normalmente acompanhada do preconceito e das ideias preconcebidas, revelando um modelo de pensamento de uma certa “elite”, totalmente desajustada às realidades e aos tempos que se vivem – apesar de continuarem a produzir e a veicular opinião, já que os “sistemas” tendem a ter comportamentos conservadores (o “filme” patético que a imprensa fez, alimentada por essa tal “elite”, em torno do facto do primeiro-ministro de Portugal morar em Massamá, como se de um local extraterrestre tratasse, é exemplo disso mesmo).

 

Para quem conhece minimamente Portugal e está habituado a andar por alguns lugares recônditos deste País, só pode discordar de muito do que é dito por esses tais mensageiros iluminados que por aí pululam.

 

Na reportagem Gente da Minha Terra a voz é devolvida às pessoas, à fonte da mensagem, e o que elas dizem não bate certo com aquilo que as tais “elites pensantes” dizem quando supostamente falam em nome das primeiras. Oportunamente, também o Paulo Moura do Público fez uma reportagem há dias pelas ruas de Atenas e de Salónica, dando conta de uma realidade diferente daquela que muitos dos "especialistas" nacionais têm andado a dizer.

 

publicado por Alexandre Guerra às 07:47
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