Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Rádio Televisão Portuguesa?

Como seria expectável muito se tem escrito sobre a privatização da RTP. Por isso, não cabe aqui neste texto analisar tal processo, até porque são várias as opiniões sobre a matéria. Algumas, certamente, provenientes de gente bem mais informada do que o autor deste poleiro. Além disso, existe agora por aí um grupo de “iluminados” com a missão de reflectir sobre o futuro da televisão pública portuguesa.

 

Nestas linhas o que se pretende é dissertar um pouco sobre a RTP enquanto veículo de projecção dos interesses nacionais e da língua portuguesa no mundo. Esta deveria ser uma das missões da televisão pública, mas basta ver as confrangedoras RTP África e RTP Internacional para logo se constatar a probreza conceptual daqueles canais.

 

O que não é de estranhar já que os sucessivos Governos têm olhado para a RTP como uma espécie de megafone da sua mensagem político-partidária e como um palco de influências mesquinhas onde se jogam algumas peças do tabuleiro da politiquice doméstica. Quanto ao importante, pouca visão estratégica tem havido.

 

Nos inúmeros debates que ao longo dos anos se têm feito sobre a RTP, o autor destas linhas não se recorda de alguém do poder político ter proposto ou falado sobre a necessidade de criar um modelo para a RTP África ou para a RTP Internacional enquadrado numa lógica de projecção de poder e de defesa dos interesses nacionais.

 

Perante isto, não deixa de ser sintomático que o Governo se mostre mais empenhado em escolher um correspondente para Washington do que em criar uma rede sólida e competente de jornalistas em vários pólos da lusofonia.

 

Com excepção de Angola e Brasil, a RTP praticamente não se faz sentir nos restantes países da lusofonia. De tempos a tempos quando é necessário informar os portugueses daquilo que se passa naquelas paragens, o resultado é quase sempre amador e, por vezes, vergonhoso.

 

Ainda este Domingo à noite, durante o Telejornal da RTP 1, assistia-se a mais um exemplo do desleixo com que a televisão pública trata os temas lusófonos e, em particular, a língua portuguesa.

 

Neste caso, tratou-se de uma peça sobre as eleições presidenciais em Cabo Verde. Com o devido respeito pelas boas intenções da jornalista autóctone, a verdade é que aquela reportagem é reveladora da forma leviana e desinteressada como todos estes assuntos são tratados pela RTP e, em última (ou primeira) instância, pelo Governo.

 

Entre outras coisas, é inadmissível que a peça da RTP passasse as declarações do ainda Presidente Pedro Pires em francês, recorrendo depois à dobragem das mesmas em português. Tudo isto é ainda mais ridículo já que a própria jornalista se encontrava no local, podendo e devendo recolher o som das declarações de Pedro Pires em português.

 

Um pormenor ou um preciosismo deste poleiro, poderá estar o leitor a pensar, porém, é mais do que isso. Situações como esta espelham a ausência total de um paradigma que reflicta na RTP os interesses estratégicos de Portugal no mundo da lusofonia.

 

E mesmo com correspondentes mais activos em Angola e no Brasil, a RTP limita-se a reproduzir peças sem que se veja uma coerência estratégica. Fica-se com a sensação que, de quando em quando, os jornalistas lá enviam qualquer coisa.  

 

Mas no caso de Angola, tudo se torna ainda mais gritante. Muito se fala do “milagre” angolano e das empresas nacionais a operar naquele território, mas quantas vezes o leitor vê nos noticiários da RTP reportagens sobre aquele país?

 

Não pense o leitor que está aqui uma crítica implícita aos dois correspondentes naqueles países. Nada disso, porque o problema começa precisamente em Lisboa.

 

Os sucessivos Governos nacionais nem sequer têm demonstrado qualquer tipo de maquiavelismo na utilização da RTP como “arma” político-diplomática, económica ou cultural para influenciar ou defender interesses nacionais em palcos lusófonos.

 

Neste capítulo, o Governo britânico, para o bem e para o mal, não se tem inibido de utilizar a BBC em diferentes palcos na defesa de vários interesses. E já agora veja-se o exemplo da France24 que, mais do que um canal de notícias, é uma tentativa de posicionamento da língua francesa num mundo de informação cada vez mais anglo-saxónico. Também a criação da EuroNews assentou numa matriz ideológica como forma de reforçar o projecto de construção europeia.

 

publicado por Alexandre Guerra às 07:11
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1 comentário:
De Anónimo a 22 de Agosto de 2011 às 08:30
E a questão da RDPI com o encerramento da onda curta? Diz tudo sobre a intenção da empresa em relação à Lusofonia.

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