Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Em defesa da moral e da virtude, abaixo os encontros "one to one"!

Ainda nos tempos de jornalista, o autor deste poleiro fez há uns anos uma entrevista a Ferreira do Amaral, então presidente da Lusoponte, tendo como pano de fundo os temas dos projectos do novo aeroporto de Lisboa, na altura a apontar para a Ota e o futuro TGV.

 

Aquele ex-ministro de Cavaco Silva personificava os tempos áureos das grandes obras públicas durante a era do “cavaquismo”, ou não fosse uma espécie de “pai” das auto-estradas em Portugal e da Ponte Vasco da Gama, uma das maiores realizações de engenharia jamais feita em território nacional.

 

Durante os anos em que exerceu a pasta das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, entre 1990 e 1995, Portugal era inundado por milhões de contos vindos de Bruxelas. Eram fundos que aos olhos dos decisores políticos e dos portugueses pareciam vir de um poço sem fundo, algures entre Bruxelas e Estrasburgo.

 

Foi neste contexto, com muito dinheiro disponível e muita obra para fazer, que Ferreira do Amaral teve de lidar com interesses, pressões, influências, mas não tendo necessariamente visto nisso uma disfunção do sistema democrático nem um ataque à sua seriedade.

 

Na altura Ferreira do Amaral disse: “Eu não me importo nada que hajam lobbys financeiros. Eu até quando era ministro gostava. Porque é uma forma de me venderem soluções, a culpa é de quem as compra. Estes lobbys evidenciam os aspectos positivos dos investimentos e isso é bom, porque ajuda estudar o problema. Agora, quem decide tem que ser muito independente, tem de saber ler o que é que representa uma vantagem e um inconveniente para depois fazer uma escolha.”

 

O autor destas linhas recorda sempre estas palavras quando, por ignorância ou ingenuidade, lá vem alguém falar nas relações “tenebrosas” e ímpias entre jornalistas e consultores de comunicação.  Certamente que o leitor já percebeu que tudo isto vem a propósito de uma noticia do Público de ontem e de uma referência negativa na rubrica Sobe e Desce, a propósito do facto de um determinado consultor ter revelado que promovia encontros one to one (só esta expressão retirada do manual de boas práticas das PR acabaria à partida com qualquer requinte de malvadez num encontro que juntasse as forças do Dark Side).

 

A surpresa do jornalista e do Público, e a sua convicção que tinham uma “cacha”, contrasta com a naturalidade de Ferreira do Amaral, e com a prática aceite e legislada nos países mais desenvolvidos do mundo, como os do Norte da Europa, os Estados Unidos, o Reino Unido ou em cidades como Bruxelas e realidades como o Parlamento Europeu, em Estrasburgo.

 

Não só a interpretação do jornal é descabida como revela um total desconhecimento da actividade das Public Relations. Além disso, a abordagem que o jornal faz ao assunto está marcada por uma espécie de "pecado original", ao descartar o princípio da seriedade e do bom profissionalismo no seio agências de comunicação. Seria a mesma coisa que o leitor assumir que os jornalistas são influenciáveis e publicam artigos por “encomenda”.

 

Ou será que os jornalistas do Público quando viajam a convite de entidades privadas e públicas se sentem condicionados no seu papel, reflectindo-se no resultado do seu trabalho? Este autor parte do princípio que não. Ou, quando esses mesmos jornalistas vão almoçar com “fontes” ou beber um copo à noite com políticos e empresários, será que isso os tolda no exercício das suas funções? Este autor volta a dizer que não. E porquê? Porque parte do princípio que o jornalista, tal como o político, o empresário ou o consultor de comunicação jogam todos dentro das regras estabelecidas, com seriedade e profissionalismo. Claro que aqui ninguém é ingénuo ao ponto de acreditar que são tudo bons rapazes. 

 

Sintetizando a ideia de Ferreira do Amaral, a seriedade e o profissionalismo resistem a quaisquer almoços, encontros ou outro tipo de encantamentos. Tal como a ausência daquelas características, corrompem qualquer jornalista, político, empresário, juiz ou consultor de comunicação, seja ao almoço com os sogros ou na missa de Domingo.

 

Uma nota final ao Público.

 

Nestas coisas da moral e da virtude, porque, basicamente é neste campo em que está a discussão – a partir do momento em que o jornal faz um juízo de valor na sua rubrica do Sobe e Desce –, convém sempre ter em consideração dois factores: Não se ser mais papista do que o Papa e saber sempre do que se fala.

 

Ora, já está mais do que visto que o jornalista “andava aos papéis” sobre a actividade das Public Relations, o que até é estranho para alguém com alguma experiência na área política. Uma modesta sugestão aqui do PiaR: O jornalista pode, por exemplo, falar com alguns colegas de redacção que, certamente, lhe darão umas luzes sobre esta coisa do relacionamento com as agências. Bem rotinados nos almoços e nas conversas, o mais negativo que os tais colegas poderão dizer é que as agências são uma cambada de “chatos” com os telefonemas de “follow up”.

 

Já mais criticável é o facto do jornalista não ter tido em consideração regras básicas em termos editoriais, sobretudo quando parte para uma cruzada e apregoa virtudes. Ao ler-se o artigo, escrito com uma linguagem pouco neutra e um tom tendencioso, percebe-se que está orientado para determinado resultado, que aliás é depois comprovado na apreciação negativa e subjectiva do Sobe e Desce. Repare-se na útlima frase desta rubrica: "Não o disse [o consultor], mas na prática é uma tentativa de influência", conclui o Público no alto da sua sapiência e sabedoria.

 

De uma forma muito frontal e rigorosa, o artigo, que dá origem ao Sobe e Desce, está desequilibrado, é orientado e tal como está escrito nunca passaria numa editoria atenta (pelo menos por esta editoria do PiaR). Este exercício analítico é interessante e vale sempre a pena fazê-lo, sobretudo em textos assinados por alguém e publicados num jornal que se assumem como arautos dos bons comportamentos, da moral e da virtude.

 

publicado por Alexandre Guerra às 02:10
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