Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Este é um texto sobre comunicação, de então e de agora

David com a cabeça de Golias, Caravaggio

 

Infame, polémico, enigmático, lunático, perverso, e muitos outros adjectivos se aplicariam justamente a Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), um pintor que viu a sua arte ao serviço da estratégia de comunicação do poder instituído.

 

O seu quarto, espartano, foi uma espécie de estúdio, onde recriou situações e modelos. Todos os detalhes passavam para a tela e nenhum pormenor se perdia no processo artístico. Pelo contrário, Caravaggio tornava mais apelativa e bela toda a informação que apreendia com os seu sentidos e transportava com os seus pincéis.

 

Embora tenha começado a sua carreira em Milão, foi em Roma que ganhou influência e estatuto ao serviço do poder papal, colocando a sua arte como instrumento de public relations em plena Contra-Reforma. A arte religiosa era procurada pelo Vaticano para passar a sua mensagem, e estava disposto a pagar quantias avultadas pelas comissões de artistas.

 

Mas, o Vaticano sabia também que para a sua mensagem passar era necessária uma nova abordagem na forma de comunicar os valores católicos para travar a incursão protestante. A fórmula utilizada até então já não resultava. Pouco agressiva e impressionante.

 

É aqui que surge Caravaggio, com o seu registo naturalista, dramático, teatral, objectivo e cru. É um homem que se “desprende de todos os ornamentos artificiais” e se preocupa mais com a realidade, devolvendo “a carne e o sangue às suas figuras”, escreveu Giovanni Pietro Bellori, em 1672.  

 

A sua fase inicial, marcada por uma pintura “doce e pura” e através da qual alcançou o prestígio, foi fundamental para o próprio Caravaggio “provar a ele próprio ser um excelente colorista da Lombardia”.

 

Porém, escreve Giovanni Pietro Bellori: “But he soon moved on to the other dark style driven to it by his own temperament” (semelhanças com aquilo que foi escrito há uns tempos neste espaço?).

 

Foi graças a este percurso, onde é explorada a transição da luz para a escuridão, que Caravaggio inventa a técnica chamada de “tenebrismo”. Nada mais do que uma atracção pelo lado mais negro e que veio a revelar-se uma poderosa ferramenta de comunicação do poder papal.

 

O “tenebrismo” é também um reflexo da sua própria vivência, turbulenta, perigosa, constantemente em pecado. Caravaggio tinha essa noção, de que alguns limites não podia ultrapassar, correndo o risco de não ter salvação.

 

Uma das suas obras mais emblemáticas demonstra essa ambiguidade. Dizem os entendidos que o quadro David com a cabeça de Golias é um auto-retrato de Caravaggio, onde o próprio se vê enquanto herói David, mas também como monstro Golias.  

 

Um quadro com uma mensagem clara, uma espécie de assumpção de culpa e de apelo ao perdão, oferecendo a sua cabeça na pintura em troca da salvação na vida real.

 

Caravaggio, que viveu uma vida sob o lema de “Sem esperança, sem medo”, extravasou todas as barreiras que podia, mas a determinada altura da sua vida percebeu que algumas linhas não deviam ter sido cruzadas.

 

publicado por Alexandre Guerra às 07:49
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