Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

Quando a lenda se transforma num facto, publica-se a lenda

 

Quando há uns tempos foi aqui escrito um texto inspirado no filme de John Ford, “Young Mr. Lincoln”, abordando o processo comunicacional entre o político e a multidão, o Rui Calafate do It's PR Stupid sugeriu um outro filme daquele realizador, de uma fase muito mais avançada da sua carreira e um dos mais importantes da sua obra.

 

“The Man Who Shot Liberty Valance”, 1962, tem como principais protagonistas James Stewart e John Wayne, contando ainda com Lee Marvin no papel do cruel Liberty Valance.

 

A acção passa-se em Shinbone, uma cidade do Oeste americano que apanhou a “boleia” da chegada do caminho de ferro em direcção ao desenvolvimento. Neste processo evolutivo, Shinbone depara-se com o conflito entre dois modelos de sociedade: um, representa o que resta do Oeste selvagem, sem lei nem ordem; o outro é inspirado na nova América, materializada nas cidades do Leste, assentes no primado da Lei e orientadas pela Constituição, sob o princípio dos americanos serem todos iguais e terem o direito a procurarem a felicidade.

  

Ransom Stoddard (James Stewart), jovem advogado, vindo de Leste e que acaba de chegar a Shinbone, à procura de “fama, aventura e dinheiro”, personifica o rosto do novo Oeste, onde a “pena” e a Lei substituem a justiça do revólver.

 

Mas este modelo de sociedade que começou a chegar ao Oeste com o caminho de ferro teve ainda de conviver com os resquícios de um estilo de vida em que as diligências, o analfabetismo ou os “seis tiros” faziam parte de um quotidiano, no qual o pistoleiro Tom Doniphon (John Wayne), um dos heróis da história, representava o símbolo da autoridade e da força do velho Oeste. Um velho Oeste que tinha bandidos como Liberty Valance.

 

Durante este processo evolutivo, em que uma visão de sociedade acaba por se sobrepor à outra de forma natural, o papel da comunicação e da imprensa começa a ser vital na defesa dos interesses dos cidadãos junto das instâncias comunitárias e estaduais (lobby) e na transmissão de notícias junto da população.

 

Uma importância reconhecida no papel preponderante que o editor/jornalista do Shinbone Star, Dutton Peabody (Edmond O’Brien), desempenha nesta narrativa. Este tem, aliás, um dos mais extraordinários monólogos que o autor destas linhas já ouviu sobre o papel do jornalista na sociedade.

 

Depois de ter sido escolhido, juntamente com Stoddard, pelos seus concidadãos de Shinbone para representar os interesses da cidade numa convenção que deveria eleger um delegado para Washington, Peabody, numa tentativa vã de recusar a nomeação, profere o seguinte: “Sou um jornalista, não sou um político. Os políticos são o meu material. Faço-os, destruo-os. Mas não seria um, não poderia ser um. Destruir-me-ia […]. Boas gentes de Shinbone, eu sou a vossa consciência, sou o calmo murmúrio que troveja na noite. Sou o vosso cão de guarda que uiva contra os lobos. Sou o vosso padre confessor.”

 

Outro dos momentos de comunicação revelador da importância crescente da oratória e do marketing político na construção da América é quando um dos delegados na convenção, pertencente a um lobby contrário aos interesses de Shinbone, inicia a sua apresentação com uma folha na mão, começando por dizer que tinha preparado um discurso. Porém, num gesto preparado e querendo mostrar que falava de improviso e com emoção, amachuca a folha e teatralmente atira-a para o chão. Um outro delegado, do campo dos representantes de Shinbone, desconfiado pelo discurso que supostamente tinha sido preparado, apanha a folha amachucada do chão e constata que nada estava escrito.

 

Um momento puramente teatral, de dissimulação e de marketing político em defesa de um determinado lobby, tão comum nas sociedades pós-modernas dos dias de hoje.

  

Entre os vários grandes momentos do filme, um dos maiores ensinamentos está reservado para o final, quando Ransom Stoddard, regressado a Shinbone, enquanto senador, muitos anos depois de ter deixado aquela cidade, conta a verdadeira história sobre quem matou Liberty Valance ao novo editor do Shinbone Star, Maxwell Scott.

 

Uma história verdadeira, mas que deitaria por terra aquela que durante anos alimentou o imaginário das gentes de Shinbone e das regiões circundantes.

 

Scott, que estava inicialmente tão ansioso para informar os leitores sobre a razão do regresso de Stoddard a Shinbone, decidiu não publicar a verdadeira história. Intrigado, Stoddard perguntou a Scott a razão por que já não estava interessado em informar os leitores sobre os acontecimentos verídicos que conduziram à morte de Liberty Valance.

 

O editor do Shinbone Star limitou-se a dizer: “Isto é o Oeste, 'Sir'. Quando a lenda se transforma num facto, publica-se a lenda.”

 

publicado por Alexandre Guerra às 08:10
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