Sábado, 13 de Setembro de 2008
A líder, o seguidor e o Estado Espectáculo

Em tempo de reentré, Manuel Ferreira Leite disse há poucos dias que não “faz política espectáculo”. Pacheco Pereira, uma espécie de conselheiro da líder do PSD, pegou nestes “sound bites” e lançou o tema para discussão ao denunciar a “sobreposição de critérios espectaculares à política”. São formas de estar na política e de fazer política e, como tal, respeitáveis como qualquer outra.

 
Porém, o autor destas linhas parte doutro pressuposto: o da política enquanto “arte de governar” um Estado. E como qualquer arte, tem de haver uma carga dramática, uma componente estética, uma vertente de espectáculo... Estes critérios minimizam essa mesma arte? Claro que não, a não ser que essa mesma arte, por via de um artista menor, seja de facto pouco aconselhável.
 
Além disso, a política traduz “o aspecto dinâmico de todos os fenómenos implicados pela actividade que visa, quer a conquista do poder quer o seu exercício” (Alain Birou). De tudo isto resulta uma relação de forças que torna inevitavelmente a política atraente para quem a consome.
 
Ao ler-se a Política de Aristóteles (o inventor do “homem político) percebe-se que a política na sua génese era “espectacular”, assente no diálogo, no discurso e na comunicação.
 
Assim, o problema não reside tanto no espectáculo mas sim na qualidade do “artista” que o proporciona.
 
É difícil conceber a boa política sem espectáculo. E nisso a tradição anglo-saxónica ainda tem muito a ensinar aos governantes e políticos nacionais. Porque o curioso de toda esta história da “política espectáculo” é que muita da inspiração doutrinária que rege, por exemplo, o sistema político português veio dessas mesmas fontes anglo-saxónicas.
 
O problema é que pelo meio perderam-se os hábitos e as práticas do quotidiano que tornaram a política anglo-saxónica tão rica em termos de debate e de espectáculo. É caso para dizer que em Portugal se ficou com a doutrina, mas não se aprendeu a arte para utilizar essa mesma doutrina.
 
Os ingleses, pelo contrário, revelaram-se exímios a fazer política, tornando-se por inerência mestres na comunicação. Não será por isso de estranhar que terá sido o sistema político inglês a fabricar um dos políticos mais “espectaculares” do século XX em regimes democráticos: Winston Churchill.
 
Certamente que Pacheco Pereira não ousará questionar a qualidade do político brîtânico, apesar de ter sido um autêntico "espectáculo" na arte da governação.
 
O autor destas linhas considera que uma pessoa pode ser “verdadeira e directa” (como Manuela Ferreira Leite diz que é) e ao mesmo tempo dar “espectáculo”. De todos os manuais de ciência política consultados neste poleiro nunca se encontrou tal repúdio ao espectáculo na política.
 
Pelo contrário, o sociólogo político Roger-Gérard Schwartzenberg na sua famosa obra Estado Espectáculo (traduzida apenas em português do Brasil) aceita naturalmente a transformação do jogo político e a relação íntima entre os políticos e os órgãos de comunicação social.
 
Tal como todo o espectáculo, tudo depende dos artistas…
 
Por isso, os tais “critérios espectaculares” que Pacheco Pereira refere no Abrupto como algo de perverso na política são na verdade componentes que se encontram na origem da política enquanto arte de governar na sua essência mais pura.
 
Quer-se acreditar que Pacheco Pereira enquanto homem das letras sabe isso, mas começa a mostrar sinais de estar a confundir seu papel de político e de historiador/analista.
 
Só assim se compreende porque é que Pacheco Pereira diz que Manuela Ferreira Leite é “atacada pelos donos e empregados das agências de comunicação que pululam nos blogues”.
 
Além de demonstrar uma profunda deselegância quanto usa a palavra “empregados” (longe de ser inocente), Pacheco Pereira parece esquecer que se há quem ataque a líder do PSD, esse alguém vem precisamente das fileiras do partido ao qual pertence.
 
Mais, o tom generalista com que Pacheco Pereira costuma falar em relação à actividade das agências de comunicação no sector da política demonstra um desconhecimento profundo da realidade, o que é algo incompatível com a honestidade intelectual que costuma clamar para si.
 
Efectivamente, de acordo com aquilo que se sabe aqui neste poleiro, apenas uma ou duas agências trabalham na chamada “política dura”, precisamente aquela política a que Pacheco Pereira se refere.
   
Pacheco Pereira terá que perceber que Manuela Ferreira Leite, com ou sem agências de comunicação, poderá não estar apta para fazer boa política.
 
Enquanto político, Pacheco Pereira pode aceitar cegamente as eventuais "virtudes" políticas da sua líder. Ninguém o pode criticar por isso. 
 
Como historiador e analista, terá de manter em aberto todas as possibilidades, incluindo aquela que aponta para o facto de Manuela Ferreira Leite precisar urgentemente da ajuda profissional em termos de comunicação política. E é isso que Pacheco Pereira não concebe…


publicado por Alexandre Guerra às 17:15
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