Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

O político e a multidão

Henry Fonda no papel do jovem Abraham Lincoln em Young Mr. Lincoln de John Ford

 

Aproximam-se tempos agitados (e potencialmente interessantes) no que diz respeito à comunicação política. Os processos eleitorais que se avizinham (presidenciais) e outros que se adivinham (possíveis legislativas antecipadas) devem ser, em tese, momentos de desafio ao “candidato”, ou seja, ao “político”.

 

Tal como um atleta treina ao longo da vida para os momentos de competição ou o músico ensaia horas a fio para os concertos, também o “político” desenvolve as suas capacidades ansiando pelo dia do combate eleitoral.

 

Neste seu percurso, o político vai comunicando e cativando a multidão, num processo evolutivo, no qual vai melhorando a sua oratória, linguagem corporal e refinando as suas mensagens e doutrinas.  

 

Ainda no Domingo, numa excelente entrevista da jornalista Kathleen Gomes na revista Pública, David Remnick, director da New Yorker, explicava como Barack Obama foi melhorando as suas capacidades de comunicação, desmistificando, de certa forma, a ideia de que o Presidente tinha nascido com uma capacidade inata. Na verdade, muito daquilo que Obama é hoje em termos comunicacionais resulta de muito trabalho e dedicação, diz Remnick, autor de uma biografia do Presidente.

 

Seja como for, isso não lhe retira as excelentes e reconhecidas capacidades oratórias, que mobilizaram multidões em vários confrontos eleitorais até o conduzirem à Casa Branca, mas poderá ajudar a explicar parte do descontentamento do eleitorado materializado nas eleições de intercalares do passado dia 2 de Novembro. 

 

A multidão tem a virtude de, mais cedo ou mais tarde, acabar por distinguir o produto genuíno da fabricação (mesmo que esta seja muito boa). Isto não significa que Obama seja um político desvirtuado ou incompetente, significa antes que a imagem do Presidente resulta de um processo construtivo racional e orientado para determinado resultado.

 

Porém, é precisamente no factor da genuidade que se distingue a intensidade da relação entre diferentes políticos e a multidão. Aquele político que esteja mais liberto das convenções e dos dogmas comunicacionais, mais próximo da sua essência enquanto homem entregue à missão da governança, tende a ser mais apaixonante e mobilizador mas, eventualmente, mais polémico e mais desajustado ao actual sistema político.

 

No sublime filme Young Mr. Lincoln (1939), de John Ford, com Henry Fonda a desempenhar o papel do jovem Abraham Lincoln, a genuidade do então aspirante a advogado e a sua entrega à causa pública, nem que fosse a defender o interesse de alguns aldeões, tornavam-no já naqueles tempos, ainda longe da Casa Branca, um líder naturalmente reconhecido e respeitado.   

 

Young Mr. Lincoln é um autêntico tratado sobre comunicação política entre o “político” e a multidão. Aqui o político surge na sua essência, sem qualquer “maquilhagem” ou ornamentos, com o filme a começar com uma espécie de comício para meia dúzia de pessoas, à porta de sua casa, no qual Abe assume-se como um simples homem a explicar as razões para o elegerem para o primeiro cargo político.  

 

A sua oratória e inteligência, aliadas ao comportamento recto e genuíno, fizeram dele uma referência na comunidade onde se inseria, ao ponto de conseguir travar uma multidão em fúria para enforcar dois homens, através do poder da palavra, levando-os a compreender a injustiça do seu acto e a reflectir sobre as possíveis consequências do mesmo.

 

Sem recurso à força ou a qualquer técnica coersiva, Abe limitou-se a falar de forma clara para a população, com uma mensagem genuína imediatamente reconhecida pelos seus interlocutores.

 

Também há sensivelmente dois anos, a maioria dos eleitores americanos viu genuidade nas palavras de Obama, quando este disse convictamente “Yes, We Can”. Mas, agora talvez muitos americanos tenham chegado à conclusão que aquele slogan não tenha sido mais do que a criação de uma equipa de “spin doctors”. E, a julgar pelas palavras de David Remnick, talvez tenham alguma razão.

 

publicado por Alexandre Guerra às 08:15
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2 comentários:
De Rodrigo Saraiva a 16 de Novembro de 2010 às 14:57
like it!
De António Valle a 18 de Novembro de 2010 às 16:21
Excelente post .

A grande dificuldade dos dias de hoje parece-me estar, também, na opinião pública. Por muito genuíno que o político seja, há sempre o preconceito "do todos iguais". Acho que há uma grande dificuldade nos públicos em acreditar que um político pode mesmo ser genuíno e verdadeiro. Claro que a "culpa" é de toda uma classe politica que se foi descredibilizando...
É necessário uma mudança de mentalidades e que não acontece num simples discurso...
Mas é possível :)

Um abraço,
António Valle

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