Terça-feira, 7 de Setembro de 2010
Manobras de comunicação num julgamento com um fim inconclusivo

Cenas do último episódio da série The Sopranos

 

Quando em Junho de 2007 foi para o ar nos Estados Unidos o último episódio da mítica série Os Sopranos, todos esperavam um final apoteótico, avassalador, revelador, que fosse o culminar de quase uma década de histórias e de tramas humanas, com os quais os telespectadores se foram envolvendo emocionalmente.

 

Os fiéis seguidores dos Sopranos aguardavam pelo final da série, convictos de que ao fim daqueles anos todos e das emoções vividas iriam ter finalmente o seu descanso, tal e qual um livro que se termina, com a sensação de tranquilidade e de satisfação de quem atravessou uma jornada cheia de aventuras, dificuldades e de desafios.

 

Mas, chegado o momento de todas as decisões, e com todas as condições para a apoteose, o fim dos Sopranos trouxe desilusão, inquietação e frustração para muitos dos seus seguidores. O problema? Não foi suficientemente conclusivo.

 

Sem certezas absolutas e perante a ausência de um final conclusivo, os fãs dos Sopranos sentiram-se desorientados e perdidos.  

 

A partir daqui cada um deu largas à imaginação para interpretar o final à sua maneira, inclusive a Wikipedia tem um capítulo dedicado às possíveis interpretações do final da série. O ângulo de interpretação foi tão amplo que há quem tenha visto neste último episódio a antecâmara para uma nova série.

 

De certa forma, é desta forma que o autor destas linhas considera que a maioria da opinião pública interpreta a leitura do acórdão do julgamento do processo Casa Pia. Diga-se maioria e não totalidade, porque existem sempre aqueles com crenças preconcebidas de culpabilidade ou de inocência, consoante as caras e os corações, independentemente dos factos ou dos argumentos.

 

Em termos comunicacionais não houve em Portugal processo judicial ou julgamento tão mediatizado e comunicado. Foram anos intensos que envolveram a sociedade portuguesa e suscitaram debates acessos e reflexões sobre problemas sérios, que foram da justiça ao papel dos meios de comunicação social, passando pelos direitos das crianças ou pela função do Estado nas suas responsabilidades de protecção dos seus cidadãos.

 

Além disso, foram anos de investigações, de enredos, de interrogatórios, com teorias da conspiração à mistura, veiculadas pelos meios de comunicação social, e que faziam da passada Sexta-feira o último episódio de um filme que já se prolongava há muito e que todos queriam ver acabado de forma categórica.

 

Para o fim apoteótico foi montado um dispositivo mediático sem paralelo em Portugal no que diz respeito a cobertura de julgamentos. Muito profissional, embora de acordo com aquilo que o autor destas linhas pôde constatar no local, a presença de consultores de comunicação é ainda rara nestas andanças.

 

Quanto aos jornalistas, eram muitos e estavam divididos em três categorias: a “infantaria” colocada no exterior do complexo do Campus da Justiça, sob o olhar atento dos agentes da PSP, onde não faltaram sequer gruas ou câmaras estáticas em telhados de edifícios. O número de jornalistas era tal que, por exemplo, às saídas das sessões da manhã ou da tarde era possível verificarem-se batalhões de jornalistas a atacarem simultaneamente três a quatro intervenientes no julgamento.

 

Já no interior do edifício A do complexo do Campus da Justiça tinham acesso apenas jornalistas credenciados e aqui havia dois tipos: o grupo restrito que estava dentro da sala de audiência, localizada no terceiro andar, e um grupo maior de jornalistas que se encontrava numa sala no mesmo piso. Uma espécie press room onde se podia acompanhar o desenvolvimento da audiência através de um sistema de videoconferência.

 

O hall do terceiro piso era comum e foi neste espaço onde se realizaram muitas entrevistas e aconteceram conversas informais.

 

Dentro da sala de audiência, exígua e sem condições para uma sessão desta natureza, encontravam-se entre 8 a 10 jornalistas, colocados na primeira fila das cadeiras do público, imediatamente atrás dos arguidos. De tal forma que, de uma forma algo descontraída, deu para um jornalista “trocar umas bolas”com três dos arguidos sobre questões processuais enquanto a juíza Ana Peres não entrava na sala.

 

Tudo foi comunicado literalmente ao minuto e Portugal aguardava ansiosamente o desfecho. No clímax da sessão, que não mais de 70 a 80 pessoas estavam a assistir, a juíza Ana Peres preparava-se para lançar a primeira sentença, começando por Carlos Silvino, mais conhecido por “Bibi” e que esteve separado dos restantes arguidos durante toda a sessão.

 

O silêncio imperou e de esferográficas e blocos de notas nas mãos muitas pessoas na sala do tribunal começaram a tirar as notas. Número de crimes e anos de pena aplicada.

 

Após 8 anos, estava-se perante o tão esperado final. E as penas pesadas pressuponham uma solidez no acórdão e deixavam antever alguma tranquilidade para os “seguidores” do julgamento Casa Pia. Para a maioria da opinião pública a justiça estava a encerrar um longo processo e era nisso que iam acreditar: factos e argumentos. Para os crentes inatos de culpabilidade ou de inocência de acordo com a cor dos lindos olhos de cada um, pouco importaria a decisão do tribunal.   

 

Mas, tal como o último episódio dos Sopranos, também este final parece não ter sido conclusivo para a maioria dos portugueses.

 

Às inúmeras pontas soltas herdadas do longo processo de investigação e do julgamento, aliadas à débil argumentação da última sessão e à ausência de um acórdão alargavam ainda mais o espaço para interpretações várias. E foi esta a mensagem que começou a ser comunicada minutos depois de Ana Peres ter proferido a sentença. O advogado Sá Fernandes foi o principal mensageiro ao criar um momento de comunicação muito eficaz ao deixar em aberto a conclusão do processo.

 

De tal forma, e num apontamento que escapou a quase toda a comunicação social, a última palavra da sessão coube ao advogado José Maria Martins que deixou por escrito o seu protesto, embora num tom calmo e sereno, contrastando como aquele que adoptou durante todo o julgamento, ciente de que o “sound byte” já tinha sido dito eficazmente pelo seu colega Sá Fernandes, que conseguira fragilizar junto da opinião pública a leitura da juíza Ana Peres.

 

Estava dado o mote para um contra-ataque comunicacional de alguns dos arguidos e seus advogados que se tem prolongado nestes últimos dias, numa lógica mediática muito agressiva e estrategicamente montada, colocando a nu algumas fragilidades de todo o processo e da leitura da sentença, com conferências de imprensa, divulgação de material pela social media, publicação de livros, concessão de entrevistas e participações em programas de televisão. O síndrome “Sopranos” instalara-se.

 

Não é por isso de estranhar que durante estes dias muitas pessoas se tenham questionado sobre em quem ou em que acreditar. Estas pessoas que representam, eventualmente, uma parte considerável da opinião pública que, sem crenças preconcebidas ou juízos de valor previamente adquiridos sobre qualquer dos arguidos ou vítimas, querem apenas acreditar nos factos e nos argumentos, e encerrar com tranquilidade o fim deste processo.

 



publicado por Alexandre Guerra às 00:32
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