Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Word of Mouth - Nuno Gouveia

 

 

Política à americana

 

por: Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008.

Era uma vez na América

 

Agradeço o convite para escrever um post para o PiaR sobre a comunicação política nos Estados Unidos. E que inveja que tenho eu desse meio. Sempre preocupou a desconsideração que existe por cá pelos consultores de comunicação e pelo marketing politico. Uma mentalidade retrógrada, e que em nada se adequa à politica, onde não é suficiente ter um bom projecto; se não for bem comunicado, a derrota fica mais bem mais próxima.
 

Um consultor democrata, Thomas Sweitzer, comparou a política à guerra, pois ambos adoptam os mesmos princípios: exércitos que se combatem numa batalha, cada um com planos diferentes, forças e fraquezas, com recursos limitados, generais com estilos distintos e todos com o mesmo objectivo: derrotar o adversário. E para conseguir vencer a batalha, a comunicação desempenha um papel central. Tome-se por exemplo a campanha presidencial de Barack Obama, muito analisada e elogiada por terras lusas. O núcleo duro da sua campanha era constituído por quatro pessoas: o candidato, David Axelrod, responsável pela estratégia e conselheiro para os media, Robert Gibbs, director de comunicação e David Plouffe, director de campanha. Em quatro elementos, três deles desempenhavam funções directamente relacionadas com o mundo da comunicação. A estratégia da campanha passou por estas quatro pessoas, assente numa pirâmide hierárquica devidamente descentralizada pelos restantes membros da candidatura. É assim que funcionam as campanhas politicas nos Estados Unidos, que, não por acaso, são considerados por especialistas e académicos como o berço de todas as grandes revoluções operadas nas comunicação politica da era moderna.
 

As empresas de comunicação relacionadas com a politica constituem uma verdadeira indústria, havendo-as de todo o género: empresas de anúncios, de sondagens, de new media ou de marketing directo, por exemplo. Uma diferença substancial para o resto do mundo e que também define a forma de actuação deste ramo: as empresas têm uma linha ideológica definida, e normalmente apenas trabalham para republicanos ou democratas. Há poucos consultores que trabalham para ambos os lados. Dick Morris, que trabalhou na campanha da reeleição de Bill Clinton, é uma dessas raras excepções. Este comprometimento ideológico dos consultores é apenas possível devido à grande indústria que se institucionalizou, mas aumenta o nível do envolvimento destes agentes em todas as decisões de uma campanha. Por fim, há uma outra consequência natural concebida por este sistema: os consultores ocupam também um lugar de destaque na arena, intervindo no panorama mediático em defesa dos seus candidatos. Alguns deles tornam-se mesmo estrelas a nível mundial, como James Carville, Karl Rove ou David Plouffe.
 

Até pelo tamanho do nosso “mercado” politico e eleitoral, a realidade americana não é aplicável a Portugal. Apesar disso, até tem existido um progresso nesta área, mas para a politica ser levada mais a sério pelos portugueses, e abranger mais pessoas no processo e nas campanhas eleitorais, seria relevante que existisse uma centralidade maior da comunicação. Gostava que a nossa sociedade, e muitas vezes por culpa dos próprios políticos, deixasse de olhar com tanta desconfiança para o ramo dos profissionais da comunicação politica. Porque não considero que o marketing politico, ao contrário do que alguns defendem, represente uma despolitização da politica. Acredito sim, que pode e deve contribuir para uma melhor relação entre o poder e a sociedade.

 

Uma nota final: quando me refiro à comunicação e ao marketing politico não me estou a referir à propaganda, algo substancialmente diferente e lesiva para os próprios interesses da sociedade.
 

publicado por Rodrigo Saraiva às 15:05
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2 comentários:
De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2010 às 02:10
Você é antes de mais um pró -americano...certo?



Educadinha
De Tânia Mealha a 2 de Fevereiro de 2010 às 15:38
De facto nos E.U.A. o estudo do marketing, comunicação e psicologia política é uma realidade que não tem lugar no nosso país. Não passa só pelas empresas, mas pelas próprias universidades, onde os alunos são treinados desde cedo a estudar dados de forma quantitativa ou qualitativa, e onde a colecção de dados disponível reporta a 1948 no American National Election Studies, uma parceria da Universidade de Stanford com a Universidade de Michigan, e mais recentemente a Ohio Sate University. As próprias Universidades conduzem estudos acerca da opinião pública, participação política, eficiência dos meios utilizados para veicular a informação, eficiência da própria informação, ...

É espantosa a quantidade de dados que possuem para trabalhar e a forma como as empresas e universidades colaboram. De facto uma das boas coisas que existem do outro lado do atlântico. Por cá fazia falta cultivar esse lado, embora nunca possamos ascender a tal escala pela dimensão do país, mas faz falta aos partidos políticos portugueses ver a comunicação política com outros olhos.

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