Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Um OCS chamado L'Osservatore Romano

 

Um dia em que um consultor de comunicação em Portugal ou noutra parte do mundo conseguir chegar a um cliente ou parceiro e apresentar-lhe o jornal L’Osservatore Romano como um potencial “OCS a impactar”, essa será certamente uma pessoa que o autor destas linhas quererá conhecer.
 
O mesmo autor que há muito tem um interesse especial por aquela publicação, embora nunca tenha feito um esforço para concretizar qualquer contacto com o jornal. Perante a oportunidade de adquirir um exemplar da edição semanal em inglês (1 euro, preço de capa) no Museu do Vaticano, não houve hesitação.
 
Entre os diversos canais de comunicação do Vaticano, o L’Osservatore Romano é um dos mais interessantes e eficazes, e tem revelado nos últimos tempos uma nova tendência que merece ser aqui referenciada.
 
Criado em 1861, o L’Osservatore Romano não é oficialmente o jornal do Vaticano, mas está claramente alinhado com o ponto de vista da Santa Sé. Conta com 25 jornalistas e tem um staff total de 100 pessoas.
 
A versão diária em italiano não vende mais do que 12 mil exemplares, pouco mais do que, por exemplo o I, ou sensivelmente o mesmo que o Diário Económico. No entanto, a sua dimensão é planetária. O jornal tem ainda mais seis edições semanais e uma mensal em diferentes línguas, incluindo em português, mas todas elas juntas não vendem mais do que 100 mil exemplares.
 
O sucesso do L’Osservatore Romano não está decididamente no seu volume de circulação, mas sim onde circula.
 
Ao fazer-se uma análise mais detalhada ao jornal, de grafismo sóbrio, encontram-se muitas mensagens do Papa, a propósito de diferentes ocasiões e eventos, igualmente algumas reflexões sobre acontecimentos específicos, ou artigos de assuntos vários. No L’Osservatore Romano é também possível ler-se críticas literárias, cada vez com mais espaço e abrangência. Alguns destes textos, refira-se, revelam um elevado grau intelectual.
 
Em Julho último, o The Guardian publicou uma reportagem em que referia que o L’Osservatore Romano tinha estado nos últimos meses debaixo da atenção dos meios de comunicação social internacionais, por ter, de certo modo, quebrado com alguns conceitos tradicionais do jornal.
 
Um dos momentos foi precisamente em Julho quando o L’Osservatore Romano publica uma crítica literária a Oscar Wilde, considerando-o como “uma das personalidades do século XIX que melhor lucidez teve para analisar o mundo moderno”.
 
Como diria o The Guardian, esta frase em qualquer jornal do mundo passaria despercebida, mas no meio de comunicação social da Santa Sé seria sinónimo de que o Vaticano “teria perdoado o mais escandaloso escritor gay inglês victoriano”.
 
O responsável por esta nova tendência é o “editor in chief” Giovanni Maria Vian, que quando foi nomeado pelo Papa em 2007 encontrou no jornal dois tipos de artigos: aqueles em que o Vaticano tinha interferência directa e que eram identificados com três asteriscos; e os outros textos escritos pelo “staff” do jornal, mas que não podiam ir contra a linha do Vaticano e, salvo raras excepções, diz Giovanni, eram muito aborrecidos.
 
Este vai ainda mais longe ao dizer que o L’Osservatore Romano tinha uma relação com o Vaticano tal como o Pravda tinha com o Kremlin da era soviética.
 
O mais surpreendente de tudo isto é que Giovanni quando foi convidado para o cargo recebeu uma carta do Papa Bento XVI a pedir-lhe que colocasse o L’Osservatore Romano no “centro do debate cultural”.
 
A comparação feita pelo The Guardian é brilhante: “Tal como Rupert Murdoch estabeleceu as novas linhas ao editor do Times, também Bento XVI tinha uma lista das coisas que queria ver no jornal.” E quais eram? Mais cobertura de assuntos internacionais, mais atenção à cristandade no Oriente e mais espaço para os temas dedicados às mulheres.
 
E assim foi. Giovanni contratou a primeira mulher para a redacção do jornal e foi introduzindo várias reforma, quer gráficas, quer ao nível de conteúdo, dando liberdade aos seus jornalistas para expressarem opiniões e ideias que não têm necessariamente de ser coincidentes com o pensamento papal.
 
Apesar destas mudanças a circulação do jornal não tem aumentado, algo que não incómoda Giovanni, que vai sempre argumentado com o facto do L’Osservatore Romano ser um caso de sucesso no panorama de crise aguda que a imprensa italiana está a viver.

publicado por Alexandre Guerra às 00:27
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