Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

A noite em que o Presidente deixou de ser presidencial

 

Foto: Luiz Carvalho/Expresso

 

Numa lógica de análise à comunicação do Presidente Cavaco Silva ao País facilmente se chega à conclusão que os portugueses estiveram perante um exercício presidencial penoso, pouco nobre em termos políticos, pobre e ambíguo na vertente comunicacional.

 

Cavaco Silva foi pouco presidencial em todos os aspectos, não conseguindo ao longo da sua comunicação transmitir uma mensagem clara e eficaz. O discurso foi mal redigido, recorrendo, por vezes, a uma linguagem simplória e a um estilo impróprio para um momento de tal importância.

 

Nestas ocasiões, particularmente sensíveis para o sistema político, a elaboração de um discurso deve ser inspirada e feita de forma cirúrgica. É aqui que a arte do "speechwriter" (ou assessores) se deve emancipar em toda a sua plenitude e ser colocada ao serviço do orador, de modo a produzir um momento único e consequente de comunicação. 

 

O já muito citado Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, continua a ser um bom exemplo dessa dinâmica. Ainda recentemente, aquando do discurso proferido no Congresso a propósito da espinhosa proposta para a reforma do sistema de saúde, Obama utilizou a "arma" da comunicação para alcançar os seus objectivos. A eloquência e a beleza do discurso deram-lhe apoios, disseram as sondagens. 

 

É preciso nunca esquecer que, em tese, a intervenção de um chefe de Estado deve ser, na medida do possível, assumida como um exercício superior de retórica, inspirado nos artistas maiores da oralidade da antiguidade clássica.

 

É certo que de Cavaco Silva nunca ninguém esperou a virtuosidade das palavras e da oralidade. Nunca foi um político mobilizador, e jamais as suas palavras suscitaram qualquer tipo de emoção para os seus receptores. Porém, todos lhe reconheciam uma certa solidez nos seus momentos de comunicação.

 

O problema é que de há uns tempos a esta parte, o Presidente tem vindo a desiludir nas suas intervenções, contribuindo a pouco e pouco para o desgaste de sua imagem. Em vários momentos, Cavaco Silva demonstrou pouco habilidade na comunicação com os portugueses, cometendo erros, por vezes, grosseiros, e ajuizando mal algumas circunstâncias políticas. 

 

Esta noite, Cavaco Silva fez a segunda comunicação formal ao País (relembre-se que a primeira se ficou a dever ao estatuto dos Açores), banalizando por completo aquela "ferramenta" de poder, e expondo aos portugueses um Presidente muito pouco presidencial.

  

publicado por Alexandre Guerra às 23:43
link do post | comentar | favorito

autores

Contacto

piar@sapo.pt

tags

todas as tags

links

twitter wall @blog_PiaR

arquivos

pesquisar

subscrever feeds

Visitas ao poleiro